Imagine a cena, que não tem nada de hipotética. Cidadão de bem, contribuinte pontual, pai de família, está gripado. Toma um xarope expectorante daqueles que a farmácia vende sem receita, daqueles que a vovó dava na colher de sopa. Entra no carro para buscar o filho na escola, encontra a barreira da fiscalização, sopra o aparelho e, surpresa, o display acusa álcool no organismo. A explicação está na letra microscópica da bula que ninguém lê, porque ninguém deveria precisar ler bula de antigripal como se estivesse decifrando contrato de banco. Resultado prático: multa gordíssima, sete pontos na carteira, carro recolhido e a sensação inequívoca de ter sido emboscado pelo próprio Estado que finge zelar pela sua saúde.

O argumento oficial é sempre o mesmo, embalado naquele papel de presente da preocupação pública. É pela segurança, é pelas vidas, é pelo bem coletivo. Belíssimo. Só que o aparelho não distingue moralidade nenhuma, ele detecta moléculas. E como detecta moléculas, qualquer enxaguante bucal, qualquer xarope, qualquer fitoterápico vendido na esquina pode disparar o alarme. A premissa de que o motorista é culpado até que a química prove o contrário inverte algo que séculos de civilização ocidental haviam pacientemente construído. O cidadão agora carrega a prova da própria inocência no fígado, e a tem em janela de minutos antes do metabolismo limpar a evidência. Belo retrocesso, vendido como modernidade.

Siga o dinheiro, sempre. Quem ganha com essa engrenagem? Os fabricantes do aparelho, escolhidos em licitações cuja transparência tem a mesma textura do nevoeiro londrino. As empresas de despachante, que faturam fortunas para recorrer do irrecorrível. Os cursos obrigatórios de reciclagem, mercado cativo criado por decreto e regado a apostila xerocada. Os cofres dos detrans, que dependem de motorista flagrado como vampiro depende de pescoço descoberto. E, no topo da pirâmide, o orçamento público, que descobriu na fiscalização viária uma mina de ouro que jorra sem precisar perfurar nada. Cada gripado multado vira linha azul na planilha de arrecadação.

A solução oferecida ao cidadão é tragicômica em sua arrogância. Leia a bula. Leia a bula antes de dirigir. Como se o sujeito tivesse formação em farmacologia, como se cada ser humano devesse virar perito antes de entrar no próprio carro para ir trabalhar. A responsabilidade pelo absurdo é jogada de volta no colo da vítima, num jiu-jitsu retórico digno dos melhores burocratas de todos os tempos. O Estado define a regra impossível, vende o aparelho que a aplica, arrecada a multa que a sustenta e ainda exige que você agradeça pelo serviço prestado. É o sonho de qualquer monopolista, e curiosamente o monopólio em questão é exatamente o da força.

O detalhe sórdido é que ninguém defende motorista bêbado pilotando tonelada de metal. A discussão honesta seria sobre o método, sobre o devido processo, sobre a presunção de inocência. Mas a discussão honesta foi sequestrada pela liturgia do salvacionismo estatal, que transforma toda crítica ao procedimento em apologia à embriaguez. É o velho truque: quem questiona o imposto vira sonegador, quem questiona o subsídio vira inimigo dos pobres, quem questiona a multa abusiva vira amigo do motorista assassino. Reduzir o adversário à caricatura é mais fácil que responder ao argumento, e o aparelho de propaganda dominou essa arte como ninguém.

O recado fica, então, para o cidadão que ainda não percebeu em que jogo está. A carteira de habilitação não é um direito que você adquiriu pagando taxa, fazendo aula e passando em prova. É uma concessão temporária, revogável a qualquer momento por qualquer motivo, inclusive porque você teve a ousadia de tomar xarope para parar de tossir. O verdadeiro dono do seu carro, da sua estrada e da sua liberdade de locomoção continua sendo aquele que cobra para deixar você usá-los. Toda vez que isso parece exagero, basta soprar o aparelho gripado. A resposta vem em forma de boleto.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.