O deputado federal André Fernandes, do PL, herdeiro político do clã que jurou guerra eterna ao petismo, confirmou presença no lançamento da pré candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará, ignorando as reclamações públicas de Michelle Bolsonaro. A cena tem aquele sabor de comédia provinciana que só a política brasileira consegue produzir com tanta frequência: o soldado raso da direita conservadora ombro a ombro com o cacique que, dois anos atrás, ainda colecionava fotografias com Lula. A viúva de luto reclama, e o sobrinho político responde que negócio é negócio.
Quem acompanha o circo com olho menos romântico entende imediatamente o que está em jogo. Não há aqui conversão ideológica, epifania moral, reaproximação programática. Há aritmética. Ciro racha o eleitorado antipetista no Ceará, o PL precisa derrotar a máquina governista da família Ferreira Gomes que mudou de lado, e a aliança nasce do mesmo ventre que pariu todas as outras: a sobrevivência do mandato, a divisão dos cargos, o controle das emendas. O resto é fumaça para entreter o militante que acredita em bandeira.
Há quem se escandalize, e a indignação seria comovente se não fosse tão tardia. O conservadorismo brasileiro descobre, com vinte anos de atraso, que seus líderes operam pela mesma lógica do adversário que dizem combater. A política sob o regime do dinheiro público funciona assim em todos os hemisférios e em todas as eras: quando o orçamento é estatal, quando as emendas são bilionárias, quando o poder distribui privilégios em vez de garantir direitos, as ideologias viram fantasia de carnaval, vestida na quarta feira e guardada na quinta. O cidadão paga os dois lados do palco e ainda recebe o convite para aplaudir.
A lógica é desconfortável mas inescapável. Se a função do Estado é distribuir verba, a única coalizão que importa é a que controla o cofre. Logo, qualquer aliança que aproxime o político do cofre é racional do ponto de vista dele, ainda que pareça grotesca do ponto de vista do eleitor. O eleitor cearense que votou em Bolsonaro acreditando combater o legado petista vai descobrir que financia, com seu imposto e seu voto, a candidatura de um ex ministro de Lula apoiada por um deputado do PL. O silogismo é simples e cruel, e termina sempre na mesma conclusão: o palhaço somos nós.
Michelle protesta porque ainda acredita, ou finge acreditar, que existe coerência possível dentro de uma estrutura cuja única regra é a captura do orçamento. Reclama da traição esquecendo que o partido que abriga a família é o mesmo que vendeu legenda durante décadas para qualquer aventureiro com tempo de televisão. A guerra cultural que a direita gostaria de travar contra a esquerda nunca acontece de fato porque, no andar de cima, ambos os lados frequentam o mesmo restaurante, dividem os mesmos doadores e disputam o mesmo balcão. O combate é encenação para a plateia, e a plateia paga o ingresso duas vezes: na bilheteria do voto e na bilheteria do fisco.
Resta a pergunta que nunca envelhece, aquela que deveria abrir e encerrar todo noticiário político deste país tropical e melancólico. Quem paga essa aliança improvável, e quem recebe? Paga o trabalhador cearense que acordou hoje às cinco da manhã para sustentar com seu imposto uma estrutura política que opera contra ele em qualquer composição partidária. Recebe o deputado que garante palanque, o ex governador que volta ao poder, o partido que multiplica cargos, o operador que distribui emendas. A bandeira ideológica é só o guardanapo com que limpam a boca depois do banquete.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.