O instituto PoderData, em parceria com a Aya, anuncia que a aprovação do trabalho pessoal de Lula chegou a 44%, com queda de doze pontos na desaprovação em apenas dois meses. A margem de erro é de dois pontos, mas a margem de cinismo da imprensa que noticia o número sem perguntar de onde ele veio é incalculável. O sujeito não ficou mais competente, não derrubou a inflação dos alimentos, não destravou nenhuma reforma estrutural, não fez milagre nenhum. Apenas abriu a torneira. E quando a torneira jorra dinheiro alheio, a popularidade sobe na exata proporção do volume despejado. É física básica do populismo, e funciona desde que o primeiro tribuno romano descobriu que pão grátis comprava arena lotada.

Vejamos o quadro com a lupa que os institutos preferem embaçar. Nos últimos sessenta dias, o governo expandiu o crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada, despejou parcelas extraordinárias em programas de transferência, antecipou o décimo terceiro de aposentados, ampliou o Pé-de-Meia para estudantes e ainda mandou recado claro de que vai forçar o Banco Central a baixar juros na marra. Cada uma dessas medidas tem um beneficiário imediato, visível, agradecido, e um pagador invisível, difuso, calado. O beneficiário vai ao instituto de pesquisa e responde que aprova. O pagador é você, que vai ao supermercado e descobre que o quilo do café dobrou, mas ninguém liga para te perguntar o que achou.

A estrutura do argumento é simples a ponto de constranger. Se distribuir dinheiro recém impresso eleva a aprovação de qualquer governante, e este governo está distribuindo dinheiro recém impresso em volume recorde, então a aprovação deste governo deve subir. Subiu. Não há mistério, não há virada de comunicação, não há acerto de rumo, não há gestor competente emergindo da lama. Há apenas a velha receita de Diocleciano travestida de política social: o Estado retira do produtor pelo imposto e pela inflação, repassa parte ao dependente pela transferência, e cobra o pedágio político no caminho. O dependente aplaude, o produtor cala porque está cansado, e a conta chega depois, sempre depois, sempre na forma de moeda corroída e prateleira mais magra.

Convém também olhar quem patrocina a fotografia. Pesquisas são encomendadas, recortes são escolhidos, perguntas são formuladas, períodos de campo são definidos. Que dois meses são esses em que a desaprovação caiu doze pontos? São justamente os dois meses em que o Planalto inundou o noticiário com pacotes assistenciais e ainda transformou o tarifaço americano em cortina de fumaça patriótica, com direito a bandeira nas costas e discurso de soberania ofendida. O instituto mede humor, não mede realidade. E humor de povo agraciado com migalha imediata sempre será melhor do que humor de povo que paga a conta depois. Isto não é pesquisa, é termômetro de filé bovino subsidiado.

O que ninguém quer dizer em voz alta é a parte interessante da equação. Toda popularidade comprada com expansão fiscal é um empréstimo que o eleitor faz contra si mesmo, sem saber que assinou o contrato. O juro desse empréstimo se chama inflação dos próximos doze meses, dólar nas alturas, prêmio de risco na curva longa, fuga de investimento produtivo e aquela sensação irritante de que o salário some antes da segunda quinzena. Quando a fatura chegar, em algum momento entre o segundo semestre e a eleição, o mesmo instituto vai publicar outra pesquisa lamentando a volatilidade do eleitor brasileiro. Volatilidade coisa nenhuma. O eleitor está apenas descobrindo, com atraso de costume, que festa paga por outro tem ressaca cobrada de si mesmo.

Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta de política pública neste país tropical e endividado. Quem paga a alta de popularidade de 44%? Paga o assalariado que vê o poder de compra encolher, paga o aposentado que recebe em moeda derretida, paga o pequeno empresário esmagado entre o custo do crédito e o peso tributário, paga o jovem que não acha emprego porque o investimento privado fugiu do manicômio fiscal. E quem recebe? Recebe o palanque, recebe a base aliada, recebe o operador de programa social, recebe o marqueteiro que vende a narrativa, e recebe, claro, o próprio chefe do arranjo, que sorri na pesquisa enquanto o país consome o estoque do futuro. Aplaudir esse truque é o mesmo que parabenizar o batedor de carteira pela generosidade ao devolver dois reais de troco.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.