A cena é digna de comédia grega decadente. Uma veterana da exposição corporal, autora de uma autobiografia com título que já entrega o modelo de negócio, vem a público reclamar que outra moça, mais jovem, mais loira e infinitamente mais rica, teria copiado seu manual de ascensão. A queixa não é jurídica, é afetiva, quase maternal, daquele tipo de mágoa que só existe quando o discípulo fatura mais que o mestre e esquece de mandar flores. O detalhe saboroso é que a suposta plagiadora nunca precisou confessar inspiração alguma, porque a fórmula já era de domínio público muito antes de qualquer uma das duas nascer.
Siga o dinheiro e a fumaça some. O que está em disputa aqui não é uma ideia original, é a bilheteria de um espetáculo antiquíssimo que nossos avós chamavam simplesmente de vida de cortesã famosa. Trocam-se os nomes, atualiza-se o figurino, substitui-se a carruagem pelo jatinho fretado e o salão de chá pelo stories patrocinado, mas a mecânica é a mesma desde que o mundo é mundo. Vende-se intimidade fabricada, compra-se engajamento, converte-se engajamento em contratos, e o contrato vira imóvel na planta. Reivindicar autoria disso é o mesmo que um taxista moderno processar os cocheiros do século dezenove por terem inventado o transporte pago.
Há, contudo, um aspecto tragicômico que merece ser esmiuçado com calma. A autoproclamada precursora acusa a sucessora de ter lido seu livro e extraído dali as lições da presença pública. Repare na sutileza: a acusação pressupõe que existe, de fato, um método replicável, uma espécie de receita de bolo para transformar escândalo em patrimônio. E existe mesmo. Chama-se exploração da economia da atenção num país onde o povo, entorpecido pela inflação que come o salário e pela carga tributária que engole o resto, só tem duas opções baratas de diversão: fofoca alheia e futebol. Quem vende uma ou outra em formato digerível enriquece. Quem vende as duas misturadas se torna bilionária.
A lógica da controvérsia é esta, nua e crua. Premissa maior: num mercado de atenção escassa, vence quem provoca mais reação por segundo de vídeo. Premissa menor: reação se fabrica com ousadia calibrada, casamento espetacular, choro ao vivo e rompimento público. Conclusão inevitável: o modelo é impessoal, o modelo é replicável, o modelo não tem dona. Reclamar propriedade intelectual sobre o escândalo é como reclamar patente do espirro. Qualquer mulher minimamente midiática das últimas quatro décadas, de qualquer continente, poderia se apresentar ao cartório exigindo sua fatia da herança.
O que torna o episódio revelador não é a queixa em si, é o que ela denuncia sobre a paisagem cultural brasileira. Vivemos num país onde o sujeito produtivo, o pequeno empresário que sangra sete impostos para manter três funcionários, é tratado como explorador, enquanto a indústria do escândalo rentável é celebrada como empreendedorismo feminino. A moça que inventou um silicone polêmico e a moça que inventou um casamento com cantor sertanejo disputam no tribunal da vaidade quem foi mais pioneira em capitalizar o vazio. Nenhuma das duas roubou da outra. Ambas apenas souberam ler, antes dos demais, que numa sociedade que perdeu o senso do ridículo, o ridículo vira commodity.
E quem paga a conta dessa festa? O leitor que clica, o anunciante que persegue o clique, o consumidor que paga o anúncio embutido no preço do sabão em pó, e, no fim da cadeia, o mesmo trabalhador cansado que ainda precisa dividir o tempo livre entre novela das nove e treta de influencer. O império da atenção é sustentado pela miséria cognitiva coletiva, e brigar pela autoria do truque é, no mínimo, uma confissão involuntária de que o truque sempre existiu. O rei está nu, a rainha também, a princesa herdeira idem, e o reino inteiro aplaude porque esqueceu como se usa roupa.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.