Há uma regra tão antiga quanto a própria política que ninguém, em sã consciência, gosta de lembrar em abril de ano eleitoral, justamente quando ela está sendo aplicada com o requinte de um cirurgião ao abrir o paciente sem anestesia. A regra é simples, quase infantil: todo gasto público é, mais cedo ou mais tarde, um imposto. Pode vir disfarçado de emissão monetária, de dívida rolada no mercado, de subsídio carimbado em banco estatal, de tarifa represada que explode em janeiro seguinte, mas a aritmética é implacável. O governo não produz absolutamente nada. Ele apenas redistribui aquilo que antes arrancou de alguém, e cobra pelo serviço de transferência uma gorjeta que hoje já consome mais da metade do que o brasileiro produz.
Observe a coreografia deste ano com olhos de quem já viu este filme antes. Aumento real do salário mínimo calibrado na semana certa, expansão do Bolsa Família com novos requisitos afrouxados na hora certa, reajuste extraordinário para servidor nas carreiras certas, liberação de crédito consignado nos bancos públicos certos, perdão de dívida agrícola, isenção parcial de imposto de renda anunciada com fanfarra. Os jornais televisivos, devidamente irrigados pela verba publicitária oficial que já ultrapassa um bilhão de reais só nas estatais, transmitem tudo como presente de Natal antecipado. Ninguém, absolutamente ninguém nos grandes veículos, faz a pergunta que uma criança de dez anos faria: senhor apresentador, de onde sai o dinheiro?
Sai, senhoras e senhores, da mesma fonte de sempre, com três torneiras abertas em cascata. A primeira torneira é o Tesouro emitindo dívida a uma taxa real que devora qualquer fôlego produtivo, transformando o rentista em sócio majoritário da República e condenando a juventude a pagar, com trabalho futuro, o champanhe bebido hoje no palanque. A segunda torneira é o Banco Central chamado de independente enquanto o Executivo lhe aperta o pescoço por debaixo da mesa, resultando em uma moeda que perdeu mais de quarenta por cento do seu poder de compra desde o começo da década, embora os índices oficiais, cuidadosamente mutilados, prefiram falar em casa decimal. A terceira torneira, a mais sutil, é a nova arquitetura tributária que promete simplificar e entrega uma alíquota média que fará saudade da velha complexidade.
Siga o dinheiro dos subsídios e encontre sempre os mesmos sobrenomes, os mesmos CNPJs, as mesmas construtoras que financiam as mesmas campanhas. O banco de desenvolvimento, aquele que deveria ser instrumento de política produtiva, virou caixa dois institucional de grupos selecionados, com crédito a juro negativo em termos reais enquanto a padaria da esquina paga trinta por cento ao mês no giro. Chama se isso, com pompa acadêmica, de política industrial. O nome correto, velho de séculos, é capitalismo de compadrio, a prática pela qual o Estado escolhe os vencedores do mercado antes que o mercado tenha a chance de escolhê los, e cobra pelo favor em forma de doação eleitoral, cargo, propina ou, nos casos mais elegantes, simples lealdade perpétua.
Não é novidade histórica. Quando um império tardio começa a distribuir pão e circo para evitar a revolta das ruas, ele o faz exatamente porque a base produtiva já foi exaurida por décadas de taxação abusiva e de desvalorização monetária. As moedas romanas do século terceiro, que saíram de noventa por cento de prata para menos de cinco por cento em cem anos, contam a mesma história que o real conta hoje, apenas em outro alfabeto. Os generais pagavam as legiões com metal adulterado, os comerciantes fugiam para o campo, os impostos eram cobrados com ainda mais violência, e o populacho, entretido no Coliseu, aplaudia o próximo edito de congelamento de preços. O colapso veio sem aviso porque todos, inclusive o imperador, haviam escolhido não enxergar o evidente.
Enquanto isso, no Brasil de 2026, o judiciário funciona como tabelião do confisco. Toda vez que o parlamento, por inépcia ou cálculo, não consegue aprovar o aumento de carga tributária que o Executivo precisa para sustentar a festa, surge pontualmente uma decisão monocrática, uma modulação de efeitos, uma interpretação criativa da Constituição que realiza por caneta o que a urna recusou. A troca é explícita: o togado garante o fluxo de caixa do governo e, em contrapartida, recebe orçamento próprio, foro privilegiado permanente, auxílio moradia, auxílio paletó, auxílio livro, auxílio quase tudo, tudo custeado pelo mesmo contribuinte que, se atrasar trinta dias o imposto, tem a conta bancária bloqueada sem direito de defesa prévia.
A imprensa, essa viúva mal paga da democracia, raramente percorre a trilha do dinheiro até o fim porque depende do oxigênio das verbas oficiais para respirar. Cada matéria que elogia um programa social novo vale um contrato de mídia. Cada editorial que minimiza o rombo fiscal vale uma renovação. O jornalismo econômico virou seção de relações públicas do Ministério da Fazenda, e os poucos veículos independentes que insistem em fazer as contas são tratados como inimigos do povo, rotulados, processados, desmonetizados, estrangulados no algoritmo. A liberdade de imprensa, no país que se diz democrático, custa hoje exatamente o preço da obediência.
O eleitor de outubro receberá, portanto, três presentes disfarçados em um pacote vistoso: uma ilusão de prosperidade financiada com dívida que ele mesmo pagará em forma de inflação, uma sensação de justiça social construída sobre o saque organizado da classe que ainda produz, e uma promessa de estabilidade garantida por uma corte que há muito deixou de interpretar a Constituição para passar a editá la. Quando a conta chegar, e ela sempre chega, os culpados já terão trocado de cargo, de partido ou de país. Restará o contribuinte, mais pobre, mais vigiado, mais calado, contemplando o retrato oficial do banquete ao qual pagou para não ser convidado.
A análise e opinião são do O Algoz.