Sessenta e seis. Esse é o número de autoridades brasileiras que, no ano passado, desfilaram pelo terminal executivo do Aeroporto de Brasília para embarcar em jatinhos privados. Trinta e oito deputados federais, vinte senadores, quatro ministros de Estado e quatro ministros do Supremo Tribunal Federal. O dado é da Folha de S.Paulo e deveria provocar, no mínimo, uma pergunta elementar que nenhuma comissão de ética jamais formulará: de onde vem o dinheiro? Porque um jatinho executivo não é uma carona de aplicativo. Uma hora de voo custa entre vinte e cinquenta mil reais, dependendo da aeronave. Multiplique isso por dezenas de viagens anuais, por sessenta e seis passageiros frequentes, e o que se tem é uma conta que não fecha com salário de parlamentar, nem com os vencimentos de ministro, nem com a remuneração de toga.

O sujeito que pega o ônibus às cinco da manhã para trabalhar num emprego que rende dois mil reais por mês sustenta, via imposto sobre tudo o que compra, come, veste e respira, um sistema cujos beneficiários se locomovem como sheiks do Golfo Pérsico. Não é força de expressão. É aritmética. O deputado federal recebe, entre salário, auxílios, verbas de gabinete e penduricalhos, algo em torno de trezentos mil reais mensais do erário. E ainda assim precisa de jatinho privado. A pergunta que o contribuinte deveria tatuar no antebraço é: quem está pagando esse voo? Se é o próprio parlamentar, de onde veio a fortuna que permite esse luxo num cargo público? Se é um empresário, um lobista, um "amigo", qual é a contrapartida? Jatinho não é presente de aniversário. Jatinho é investimento. E todo investimento espera retorno.

Há uma velha técnica, praticada desde os tempos em que Roma já apodrecia por dentro enquanto erguia arcos do triunfo por fora, que consiste em tornar o privilégio tão rotineiro que ele se torna invisível. Quando sessenta e seis autoridades usam jatinhos privados e a notícia ocupa meia coluna de jornal por um dia e desaparece no dia seguinte, o mecanismo funcionou. O escândalo virou paisagem. É assim que a casta política opera: não esconde o privilégio, normaliza-o. O terminal executivo de Brasília virou a sala VIP de um clube cujo ingresso você paga compulsoriamente a cada nota fiscal, a cada litro de gasolina, a cada conta de luz. Você não foi convidado para o clube. Você foi convidado para a conta.

Repare no detalhe que revela a engrenagem inteira: são os Três Poderes. Não é um partido. Não é uma ala ideológica. Não é governo ou oposição. São deputados, senadores, ministros do Executivo e ministros do Judiciário. Esquerda e direita, situação e oposição, togados e fardados, todos compartilham o mesmo terminal, o mesmo querosene, o mesmo silêncio cúmplice. Isso não é coincidência; é a estrutura funcionando exatamente como foi desenhada. O Estado não é um árbitro neutro entre interesses da sociedade. O Estado é o interesse. A divisão em três poderes, que nos ensinam na escola como garantia de equilíbrio, é na prática um condomínio de luxo com três torres e um único síndico: o dinheiro do contribuinte. Eles brigam entre si na tribuna e no plenário como atores de novela, mas na pista de pouso compartilham o champanhe.

O que mais incomoda não é o jatinho em si. Rico pode voar como quiser, com dinheiro próprio, legitimamente ganho. O que enoja é a fusão obscena entre poder político e patrimônio inexplicável. É o fato de que pessoas investidas de autoridade pública, pagas com dinheiro confiscado do trabalho alheio, vivem num patamar de consumo que seria inacessível a 99% da população que lhes paga o salário. Cada voo desses é uma declaração silenciosa, quase debochada: nós podemos e vocês não. E o mais perverso é que o sistema foi montado para que você, que paga, não tenha sequer o direito de saber quem ofereceu a carona. Transparência, no Brasil, é substantivo de discurso, nunca verbo de prática. Sessenta e seis autoridades voaram de jatinho. Sessenta e seis. E amanhã, quando propuserem mais um imposto para "financiar serviços públicos essenciais", lembre-se do som do querosene queimando acima das nuvens. Aquele barulho é o seu dinheiro decolando sem você.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.