Nas redes sociais, o tribunal que deveria ser o templo silencioso da lei virou cartaz luminoso de avenida movimentada. Entre janeiro e abril deste ano, o volume de anúncios pagos mencionando o Supremo Tribunal Federal saltou de forma indecorosa, transformando a corte mais alta da República num produto de prateleira, vendido por impulso, com desconto e frete grátis. A pergunta que a imprensa bem-comportada finge não ouvir é simples e brutal: quem está bancando essa campanha? Porque anúncio, qualquer criança de doze anos sabe, não cai do céu. Tem cartão, tem fatura, tem CNPJ, tem nota fiscal. E quando alguém gasta rios de dinheiro para defender ou atacar uma instituição, é porque espera retorno. Sempre.

O fenômeno tem nome antigo, ainda que a roupagem seja digital. Chama-se compra de narrativa, e foi praticado com igual entusiasmo pelos áulicos de Luís XIV, pelos panfletários do Comitê de Salvação Pública e pelos publicitários de Goebbels. Muda o suporte, da gravura em madeira ao banner programático no Instagram, mas a engenharia é a mesma: fabricar consenso onde existe dissenso legítimo, sufocar a dúvida razoável debaixo de toneladas de exposição patrocinada. Quem investe milhões em fazer o cidadão amar ou odiar uma instituição não está informando ninguém; está moldando a paisagem mental do eleitor médio para colher o voto na hora certa, ou para chantagear o magistrado distraído na próxima decisão.

Repare na elegância do arranjo. Se o anúncio defende o tribunal, conclui-se logicamente que existe interesse concreto em manter o tribunal exatamente como está, com os mesmos poderes ampliados, as mesmas decisões monocráticas, a mesma agenda. Se o anúncio ataca, há interesse em pressionar, intimidar ou empurrar a corte em direção contrária. Em nenhum dos dois casos estamos diante de cidadania espontânea, daquele sujeito comovido que tira do próprio bolso para defender a República numa quarta-feira de manhã. Estamos diante de operação coordenada, com orçamento, briefing, agência, métrica de engajamento e relatório quinzenal entregue a quem mandou pagar. O resto é folclore para boi dormir.

O detalhe deselegante é que parte considerável desse dinheiro circula em zona cinzenta, escondida atrás de pessoas jurídicas de fachada, associações de fins nebulosos, institutos com nomes pomposos que ninguém audita. A legislação eleitoral, sempre criativa para apertar o pequeno e afrouxar o grande, permite que toneladas de propaganda política sejam veiculadas sob o disfarce de debate cívico, livre, espontâneo. É o velho truque do mágico de feira: enquanto a plateia olha para a cartola, a mão livre limpa a carteira do espectador. E o espectador, no caso, é justamente aquele cidadão que paga imposto para sustentar tanto o tribunal quanto a infraestrutura digital que o transforma em mercadoria.

Há ainda o desconforto adicional de que ministros de toga, em tese impermeáveis à barulheira da praça, vivem hoje hiperconscientes do clima das redes. Decisão de magistrado que finge não ler o que dizem dele tem a mesma credibilidade de jogador que jura não olhar o placar. Quem paga o anúncio sabe disso. Sabe que o juiz lê, que o assessor do juiz lê, que o filho adolescente do juiz lê e comenta no jantar. Por isso paga. Por isso o orçamento sobe. O dinheiro não persegue curtidas, persegue sentenças, e quem ainda não entendeu essa equação básica deveria considerar profissão menos exigente que a leitura de jornal.

Fica, portanto, a pergunta que abriu e fecha qualquer análise honesta deste tipo de assunto. Quem paga essa festa toda e quem recebe o produto final, na forma de decisão favorável, intimidação útil ou ambiente político moldado sob medida? Enquanto a resposta vier embrulhada em discurso de defesa da democracia, do Estado de Direito e outras palavras-ônibus que cabe tudo dentro, o cidadão continuará sendo a única figura honesta da história: aquele que paga imposto para sustentar o tribunal, paga dado pessoal para alimentar a plataforma, e paga atenção para ser convencido de que tudo isso é normal.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.