A cena é digna de comédia trágica. Uma fábrica em Luziânia, Goiás, despejou no mercado um lote de água mineral Crystal de 500 ml com bactéria viva dentro. A notícia chega agora, depois que noventa e nove por cento das garrafas já desceram pela garganta de algum brasileiro desavisado, que pagou para se hidratar e levou de bônus uma colônia microbiana. A agência sanitária, esse leviatã burocrático que consome bilhões anuais do contribuinte sob a promessa solene de proteger vidas, aparece em cena no terceiro ato, quando o estrago já foi feito, encena um recolhimento simbólico e espera os aplausos. O rei está nu, e a coroa pinga.

Convém olhar a engenharia do arranjo antes de soltar foguete em homenagem ao recolhimento. A indústria de bebidas no Brasil opera sob uma muralha regulatória que, oficialmente, existe para garantir segurança. Na prática, essa muralha funciona como cartório de privilégios: cria barreiras tão altas que apenas três ou quatro grupos conseguem produzir água engarrafada em escala nacional. O pequeno produtor regional, que talvez fizesse o trabalho com mais zelo porque atende clientes que conhece pelo nome, foi triturado por exigências de licenciamento, alvarás, taxas, ARTs, registros e inspeções, todas pagas a quem? Ao mesmo Estado que agora, com cara de paisagem, anuncia que a água da grande marca licenciada estava contaminada. Quem paga essa farsa duas vezes é o consumidor: primeiro no imposto que sustenta o fiscal, depois no preço inflado pela barreira que o fiscal ergue.

A defesa institucional virá pronta da fábrica do verniz. Dirão que o sistema funcionou, que o recolhimento prova a eficácia da fiscalização, que sem o órgão a situação seria pior. É a velha lógica de cobrar gratidão do refém porque o sequestrador serviu o jantar. Se o sistema funcionasse, a contaminação seria detectada antes da garrafa sair do galpão, não depois de circular pelas prateleiras de meio país. Detectar a doença no necrotério não é medicina preventiva, é estatística forense. E ainda assim a mesma agência que falhou em prevenir continuará justificando seu orçamento bilionário com base em sua suposta indispensabilidade. Onde mais um fracasso operacional rende aumento de verba?

Há um detalhe que merece bisturi. A marca em questão pertence a uma corporação titânica, cuja influência sobre os corredores regulatórios é tão sutil quanto um trator. Empresas desse porte não temem regulação, elas a moldam. Contratam ex-diretores das agências como consultores, financiam câmaras técnicas, patrocinam estudos, abocanham assento em conselhos consultivos. O que para o microempresário é uma sentença de morte, para o gigante é apenas o custo de admissão num clube fechado. Quando a bactéria escapa, o ritual é coreografado: nota de pesar, recolhimento parcial, multa simbólica, manchete de três dias e segue o jogo. Ninguém é preso, ninguém perde licença, ninguém indeniza de verdade o consumidor lesado.

O cidadão comum aprendeu, à custa de séculos de propaganda escolar, a confundir selo oficial com garantia de qualidade. Acredita que o carimbo da agência é prova de segurança, quando na verdade é apenas prova de pagamento das taxas certas. A reputação privada, construída pelo medo da perda de cliente, sempre foi mais eficaz do que o carimbo público, construído pela inércia de quem não pode ser demitido. Se a marca soubesse que uma contaminação significaria falência imediata por fuga voluntária dos consumidores, e não uma reportagem chata na TV seguida de campanha publicitária de reconquista, o controle de qualidade seria cirúrgico. Mas para que ter zelo se o regulador, gentilmente, divide a culpa contigo?

Resta a pergunta que importa, a única que importa. Quem pagou pela água? O consumidor. Quem pagou pelo fiscal que não fiscalizou? O consumidor. Quem pagará pelo recall, embutido no preço da próxima garrafa? O consumidor. Quem lucra com a barreira regulatória que mantém a concorrência longe? A corporação contaminadora. Quem lucra com a renovação anual de cargos, gratificações e estruturas da agência que falhou? Os funcionários da própria agência. O contribuinte sustenta os dois lados do balcão e ainda recebe bactéria na água como cortesia da casa. Se isso é proteção sanitária, então é melhor confiar no instinto do dono da venda da esquina, que ao menos olha o cliente nos olhos.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.