O comunicado saiu com aquela solenidade de quem acabou de salvar a pátria. A agência reguladora determinou o recolhimento de produtos à base de cogumelo da Microdose Life, contendo substâncias proibidas, e de um lote de canela em pó da Kodilar onde os fiscais, depois de muito microscópio e muito carimbo, descobriram a presença de pelo de roedor. Repare na coreografia. O produto foi fabricado, embalado, transportado, distribuído, exposto na prateleira, vendido, levado para casa e, em alguns casos, provavelmente já consumido. Só depois de toda essa peregrinação é que o guardião oficial da saúde pública resolveu agir. É como o bombeiro que chega depois do incêndio, mas cobra a taxa de prevenção em dobro.

Vale lembrar para que serve, no papel, essa estrutura gigantesca. Vendem ao contribuinte a fábula de que sem a agência o brasileiro estaria comendo serragem com arsênico no café da manhã. Pois bem, com a agência, está comendo pelo de rato com canela. A diferença é que agora paga duas vezes: paga o produto na gôndola e paga o salário, o prédio, a frota, a aposentadoria integral e a passagem aérea executiva do fiscal que descobriu o pelo de rato meses depois de o pacote já estar na casa de gente que confiou no selo. Quem ganha com essa farsa? O fabricante descuidado, que opera sob o álibi de um carimbo oficial, e a burocracia, que justifica sua existência justamente quando falha. Quem perde? O sujeito que tomou o chá achando que estava cuidando da saúde.

O caso dos cogumelos é ainda mais saboroso para quem gosta de observar a comédia regulatória. A mesma agência que demora anos para liberar terapias sérias, que empurra com a barriga medicamentos aprovados em meio mundo civilizado, descobre tardiamente que uma marca chamada Microdose Life vendia, vejam só, produtos com substância controlada. O nome da empresa é uma confissão pública. Está escrito na embalagem o que ela faz. E a fiscalização, com toda a sua parafernália de relatórios, comitês e consultas, precisou de tempo para concluir aquilo que qualquer adolescente curioso deduziria lendo o rótulo. Eficiência de monopólio estatal. Se fosse empresa privada concorrendo por reputação, já teria quebrado.

A defesa padrão dos apologistas do controle vem pronta. Sem a agência, dirão, seria pior. É o velho truque retórico de comparar a realidade imperfeita com um pesadelo imaginário, jamais com a alternativa real. A alternativa real é simples e antiga, anterior a qualquer ministério da saúde. Chama-se reputação. Chama-se responsabilidade civil. Chama-se o fabricante respondendo no seu próprio bolso pelos danos que causou, sem se esconder atrás do escudo do registro sanitário. Onde existe certificação privada concorrente, auditoria independente, marca que vale ouro e processo judicial que dói, o pelo de rato some da canela sem precisar de comunicado oficial. Onde existe monopólio estatal, o pelo de rato vira pauta de coletiva de imprensa.

O leitor atento já notou o padrão. Toda vez que a regulação falha, a solução proposta é mais regulação. Toda vez que a fiscalização chega atrasada, a resposta é ampliar a fiscalização, contratar mais fiscais, aumentar o orçamento da casa. É o único negócio do mundo em que fracassar é argumento para receber promoção. Imagine se o padeiro da esquina queimasse o pão e, em vez de perder cliente, exigisse subsídio para comprar um forno maior. É exatamente isso que acontece quando o pelo de rato escapa do controle. Vão pedir mais verba para a próxima descoberta tardia.

No fim, a pergunta inicial volta. Quem paga? O consumidor, três vezes: no imposto que sustenta a estrutura, no preço inflado pelo custo regulatório repassado e no risco que continua correndo apesar de toda a encenação. Quem recebe? A própria estrutura que se autoperpetua vendendo a ilusão de proteção, e os fabricantes que se acomodam atrás do carimbo. A canela com pelo de rato não é falha do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar, beneficiando quem está dentro dele e empurrando a conta para quem está fora. O resto é teatro, e o ingresso continua caríssimo.

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.