Neste domingo, vinte e quatro de maio, o Partido Comunista Chinês embarca mais três tripulantes na Shenzhou vinte e três rumo à sua estação espacial, sétima missão tripulada do programa, revezamento protocolar com a equipe lançada seis meses atrás. A imprensa global cobre o evento com o mesmo deslumbramento infantil que os jornais soviéticos cobriam a Sputnik, como se foguete fosse argumento moral e altitude conferisse legitimidade política. Não confere. Apenas comprova que existe um Estado suficientemente robusto para extrair recursos de seiscentos milhões de chineses que ganham menos do que mil reais por mês, transformando arroz e silício em fogos de artifício orbitais.
A pergunta que ninguém faz, porque ninguém é treinado para fazer, é simples e devastadora. Quem pagou pela festa e quem recebeu o cachê? Pagou o camponês de Sichuan, o operário de Shenzhen, o caminhoneiro de Chongqing, todos eles taxados, inflacionados, expropriados via banco central que imprime yuan ao gosto do politburo. Receberam os contratantes estatais da CASC, os generais do programa militar disfarçado de exploração científica, os burocratas que vivem do prestígio refletido de cada decolagem. Programa espacial, em qualquer lugar do mundo, é a forma mais elegante de transferir riqueza do contribuinte anônimo para o complexo industrial-militar bem relacionado. Os foguetes sobem, os impostos também, e o cidadão fica ali no chão olhando para cima com cara de bobo.
Há quem diga que se trata de ciência, de progresso, de orgulho nacional. Argumento velho, argumento gasto, argumento que já serviu para construir pirâmide no Egito, coliseu em Roma, catedral barroca, arco do triunfo napoleônico e arranha céu stalinista. Toda autocracia que se respeita precisa de um monumento vertical para distrair o súdito da horizontalidade miserável do seu cotidiano. A diferença é que o faraó pelo menos não fingia que estava fazendo aquilo pelo bem do camponês. O regime moderno, mais astuto, embrulha o monumento em papel celofane de pesquisa científica e diz ao trabalhador que ele deve se orgulhar de ter financiado sua própria irrelevância.
O detalhe técnico mais saboroso é o seguinte. A estação Tiangong existe porque os Estados Unidos vetaram a participação chinesa na ISS lá em dois mil e onze, via emenda Wolf, episódio que a imprensa ocidental também esquece de mencionar quando se emociona com a corrida espacial. Dois leviatãs disputando quem tem o maior brinquedo orbital, ambos financiados pelos respectivos contribuintes, ambos vendendo a narrativa de que isso é bom para a humanidade. A humanidade que se vire, porque o que está em jogo é hegemonia militar, controle de órbita baixa, satélites espiões e a velha disputa entre dois aparatos burocráticos que precisam justificar seus orçamentos colossais inventando rivalidades cósmicas.
E ainda virá o entusiasta de bermuda dizendo que esse tipo de gasto gera tecnologia derivada, velcro, panela antiaderente, GPS, o argumento da prosperidade colateral. Falácia clássica, daquelas que sobrevivem porque ninguém pergunta o que teria sido inventado se aquele mesmo capital tivesse ficado nas mãos de quem o produziu. O que se vê é o foguete decolando, o que não se vê é a fábrica que nunca abriu, a clínica que nunca foi construída, o curso técnico que nunca aconteceu, todos sacrificados no altar da pirotecnia geopolítica. O cálculo é sempre assimétrico em favor de quem controla o microfone.
Três astronautas, portanto, partem hoje numa cápsula bancada por bilhões de chineses que jamais conheceram o conforto burguês de um voo doméstico em classe econômica. Esta é a verdadeira lei da gravidade política, aquela que ninguém revoga. O Estado sobe, o cidadão paga, e a propaganda transforma confisco em conquista nacional. Bandeira vermelha hasteada acima da atmosfera, e bandeira branca silenciosamente erguida pelo súdito que aprendeu, mais uma vez, que o céu pertence a quem tem o monopólio do imposto.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.