A reportagem chega embrulhada em papel de presente, fitinha colorida e tudo, anunciando os aplicativos imperdíveis para quem desembarca em Florianópolis, Balneário Camboriú ou Bombinhas. Transporte, delivery, turismo, mapas, guias gastronômicos, tudo na palma da mão, como se a humanidade tivesse esperado o século vinte e um para conseguir caminhar até a padaria. O texto vende facilidade, mas esquece de mencionar o pequeno detalhe: cada um desses ícones simpáticos é uma cabine de pedágio digital, e o motorista, o entregador, o garçom e o turista estão pagando travessia em pontes que nenhum desses aplicativos construiu.
Quem assina o cheque, no fim, é sempre o mesmo sujeito. O motorista entrega vinte e cinco por cento da corrida para uma plataforma sediada em outro continente, paga gasolina inflacionada por imposto, paga IPVA, paga seguro obrigatório, paga manutenção do carro próprio e ainda sorri para a avaliação de cinco estrelas. O entregador pedala oito horas debaixo do sol catarinense para receber centavos por quilômetro enquanto o algoritmo, esse novo capataz que não precisa nem chicote, decide se ele come ou não no fim do dia. O turista, coitado, acha que está economizando porque pulou o táxi da rodoviária, sem perceber que pagou três corridas a mais em taxas dinâmicas, taxa de plataforma, taxa de pico, taxa de chuva, taxa porque sim.
O truque é antigo e funciona desde que existem reis e cobradores. Antigamente o senhor feudal cobrava para atravessar a ponte de pedra; hoje cobra para atravessar a ponte de bits. A diferença é estética: o feudal pelo menos mandava construir a ponte, enquanto o aplicativo cobra travessia numa estrada asfaltada com dinheiro de imposto, num carro comprado pelo motorista, com combustível taxado pelo governo, levando passageiros que descobriram a cidade por conta própria. O intermediário se enfiou no meio da relação, vestiu casaca de inovação tecnológica e convenceu todo mundo de que sem ele a economia para. Para de funcionar para quem? Para ele.
O capítulo turismo é ainda mais pitoresco. Aplicativo do governo estadual, aplicativo da prefeitura, aplicativo do sindicato dos hoteleiros, todos prometendo guiar o visitante pelas belezas naturais que existiam muito antes de qualquer linha de código. A praia da Joaquina não precisa de app para ser bonita, a Lagoa do Peri não fica mais azul porque um servidor em São Paulo confirma a localização. Mas o orçamento público precisa justificar a secretaria de turismo, a secretaria precisa justificar o secretário, o secretário precisa justificar o cargo, e nasce mais um aplicativo financiado com dinheiro do contribuinte para informar ao turista que existe areia na beira do mar. Genial.
O leitor desconfiado já percebeu o desenho: a tal economia digital catarinense não é mais livre, é mais intermediada. Cada transação que antes acontecia entre duas pessoas, motorista e passageiro, cozinheiro e cliente, anfitrião e hóspede, agora passa por três, quatro, cinco gabinetes invisíveis que ficam com a maior fatia do bolo. Some a isso o imposto que o estado cobra sobre cada operação, a regulação que protege os incumbentes contra qualquer concorrência menor, e o resultado é uma ilha caríssima vendida como paraíso barato. Façam as contas no fim da viagem e cheirem a fumaça do próprio bolso queimando.
A pergunta que ninguém faz nas matérias de turismo é a única que importa: por que precisamos de tantos aplicativos para fazer o que nossos avós faziam com uma conversa, um mapa de papel e duas pernas funcionando? A resposta é constrangedora. Não precisamos. Mas alguém precisa que precisemos, porque desse precisar vivem comissões, taxas, royalties, lobbies, secretarias e a fauna inteira que aprendeu a chamar de progresso aquilo que sempre foi, desde os mercadores fenícios até hoje, o velho ofício de cobrar passagem onde não se construiu caminho.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.