Fátima Tubarão, sessenta e tantos anos nas costas, e mais dezessete idosos saem da masmorra federal para cumprir prisão domiciliar com tornozeleira e proibição de pisar em rede social. A dádiva veio assinada nesta segunda-feira pelo mesmo punho que, anos atrás, despachou esses senhores e senhoras para o cárcere por terem caminhado, gritado, rezado ou simplesmente estado no lugar errado num oito de janeiro qualquer. O carrasco agora se traveste de bom samaritano, e a imprensa oficial bate palmas como se houvesse algo de humanitário em soltar quem nunca deveria ter sido preso. É a velha aritmética do tirano esclarecido: prende dez, solta um, e exige gratidão pelos nove que sobraram.
Reparem na coreografia. Primeiro, o espetáculo do enquadramento jurídico criativo, com tipos penais esticados feito chiclete para caber gente que não atirou, não roubou, não matou. Depois, a pena draconiana, a sentença que faria corar inquisidor medieval, com idosos cardíacos jogados em cela como se fossem chefes de cartel. E, no final, quando o constrangimento internacional pesa e o calendário político aperta, vem a cena lacrimosa da tornozeleira, vendida como ato de compaixão. É o roteiro clássico do déspota que primeiro cria o problema, depois cobra aplausos por administrá-lo. Bombeiro piromaníaco, agiota que empresta para arrombar joelho.
A proibição de acessar redes sociais é a confissão pública do que está em jogo. Não é segurança, não é ordem, não é Estado de Direito. É controle de narrativa. O que aterroriza o poder não é o velho de oitenta anos com um problema cardíaco, é o velho de oitenta anos com um celular contando o que viu. Por isso a pulseira no tornozelo vem casada com a mordaça digital. Querem o corpo em casa e a boca lacrada, porque o relato dessas pessoas é mais perigoso para o regime do que qualquer multidão. Toda ditadura, das antigas às de marca branca contemporâneas, sempre temeu mais a testemunha do que o combatente.
E quem paga essa conta? O contribuinte, sempre. Paga o salário do magistrado que prende, paga o salário do agente que vigia, paga a tornozeleira eletrônica importada, paga a estrutura do presídio onde idosos foram trancafiados, paga o tribunal que ratifica, paga a imprensa subvencionada que aplaude, paga o advogado público quando o réu não tem como contratar particular. O cidadão é triplamente espoliado: tem a liberdade ameaçada, financia o aparato que o ameaça e ainda é convocado a celebrar quando o aparato finge clemência. É a perfeição do arranjo extrativista vestido de toga.
Quem recebe é a casta. Recebe poder, recebe medo alheio, recebe o pavor preventivo que faz toda uma sociedade engolir em seco antes de postar uma piada, antes de ir a uma manifestação, antes de discordar em voz alta. A condenação de uma senhora idosa não serve para puni-la a ela, serve para domesticar todos os outros. É a função pedagógica do cadafalso, atualizada para a era digital. Um avô na tornozeleira é a mensagem expressa para milhões de avós: fiquem quietos, fiquem em casa, fiquem fora da rede, ou a próxima pulseira é a sua. A premissa é o terror, a conclusão é a obediência, e no meio do silogismo tem gente real apodrecendo.
Não chamem isso de justiça, porque justiça pressupõe proporção, e aqui só houve desproporção monstruosa. Não chamem de humanitarismo, porque humanitarismo não solta hoje quem nunca deveria ter prendido ontem. Chamem pelo nome correto: gestão de imagem de um regime que, depois de exibir os músculos, precisa exibir os dentes brancos do sorriso. A vovó volta para casa com um grilhão eletrônico no tornozelo e a ordem expressa de calar a boca, e isso é vendido como bondade. O rei está nu, e a coroa está num leilão de pechinchas, mas exige que continuemos batendo continência.
Com informações da Conexão Política. A análise e opinião são do O Algoz.