Enquanto a República inteira discute qual nova secretaria criar para resolver o problema que a secretaria anterior inventou, um sujeito chamado Iberê Thenório terminou de construir, com as próprias mãos, um veleiro capaz de navegar em águas abertas. Antes disso, o mesmo cidadão já havia montado um submarino caseiro. Sem edital, sem chamamento público, sem nota técnica do Ipea, sem grupo de trabalho, sem audiência pública, sem consultoria contratada por dispensa de licitação. Apenas um homem, uma oficina e a antiquíssima ideia de que, se você quer uma coisa feita, é melhor levantar da cadeira e fazê-la.
A cena tem algo de subversivo, e é justamente por isso que ela incomoda. Vivemos sob o dogma de que nada de relevante acontece sem a mão paternal do Estado segurando a colher. Não se faz uma ponte sem BNDES, não se ergue uma escola sem três ministérios brigando pela placa de inauguração, não se acende uma lâmpada sem subsídio cruzado pago pelo vizinho. E aí aparece um civil qualquer, que pegou madeira, resina, parafuso e paciência, e produziu sozinho aquilo que comissões inteiras prometem entregar há décadas e nunca entregam. Quem paga a conta do veleiro dele? Ele mesmo. Quem recebe o resultado? Ele mesmo. É um arranjo tão simples que parece quase indecente diante da pornografia orçamentária a que nos acostumaram.
Os antigos navegadores que partiram de pequenos portos ibéricos para descobrir continentes não tinham planejamento estratégico decenal nem matriz de risco assinada por consultoria. Tinham fome, curiosidade e a certeza de que o mar pertence a quem se atreve a entrar nele. O veleiro caseiro pertence à mesma linhagem espiritual: a do sujeito que olha para o vasto e, em vez de pedir autorização, calcula o casco. É a velha civilização ocidental funcionando no único modo em que ela alguma vez funcionou de verdade, ou seja, quando o indivíduo concreto resolve, por conta própria, fazer aquilo que ninguém pediu e ninguém financiou.
Repare na assimetria moral do episódio. De um lado, um cidadão que arrisca seu tempo, seu dinheiro e sua segurança para colocar um barco na água. Se afundar, o prejuízo é dele. Se flutuar, o mérito é dele. Do outro lado, o Estado brasileiro, que arrisca o nosso tempo, o nosso dinheiro e a nossa segurança para colocar programas afundados no Diário Oficial. Se afunda, paga o contribuinte. Se flutua, alguém ganha cargo. Nunca houve simetria mais didática entre a lógica da responsabilidade individual e a lógica do confisco institucionalizado.
E aqui mora a parte que os comentaristas oficiais jamais admitirão em voz alta. Cada projeto pessoal bem-sucedido feito fora do guarda-chuva estatal é uma pequena heresia. Mostra, sem precisar de discurso, que a tutela permanente é uma fraude argumentativa. O sujeito que ergue um veleiro na garagem desautoriza, por contraste, todo o vocabulário pomposo de quem vive de carimbar autorizações para os outros. Não admira que os mesmos que aplaudem ministros incapazes torçam o nariz para o vídeo do tal Iberê. Há sempre algo de constrangedor em ver um cidadão livre fazer, em meses, o que o aparato inteiro promete em planos plurianuais e nunca cumpre.
Quando o barco finalmente cortar o mar aberto, lembre-se de que ali não navega apenas madeira tratada. Navega a mais antiga e perigosa das ideias, aquela que o poder político moderno passou um século tentando afogar: a de que o homem comum, deixado em paz com seus próprios meios, é perfeitamente capaz de chegar bem mais longe do que qualquer comitê interministerial jamais ousaria imaginar. Quem paga, quem recebe e quem decide são, neste caso, a mesma pessoa. É por isso que dá certo. E é por isso que incomoda.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.