Lula gravou uma mensagem aos bispos do Brasil reunidos na CNBB, elogiando a Igreja Católica e a democracia, dias depois de criticar Donald Trump pelo suposto uso indevido da figura de Jesus Cristo. O timing é tão conveniente que chega a ser constrangedor. Trump ataca o papa Leão XIV, Lula sai correndo para abraçar a batina mais próxima, e o noticiário engole a cena como se fosse espontaneidade. Não é. Nunca é. Em política, todo gesto público é um investimento, e investimento pressupõe retorno esperado. A pergunta que o jornalismo oficial se recusa a fazer é justamente a mais óbvia: quem ganha o quê nesse arranjo?
Vejamos a mecânica. Lula passou quatro décadas de vida pública transitando entre o materialismo sindical e o flerte com setores eclesiásticos progressistas. Nunca foi um homem de fé ostensiva, nunca frequentou paróquia por devoção, nunca demonstrou qualquer inclinação teológica que não servisse a um palanque. O mesmo sujeito que, em momentos de conforto eleitoral, tratava a religião como folclore de pobre, agora descobre nas mitras episcopais um aliado estratégico contra o avanço evangélico que lhe corroeu a base popular. Não é piedade, é realpolitik com água benta. O catolicismo institucional brasileiro perdeu fiéis aos milhões nas últimas três décadas, e a CNBB perdeu influência política na mesma proporção. Um precisa de púlpito, o outro precisa de padrinho no Planalto. O casamento é de conveniência, e como todo casamento de conveniência, alguém paga a conta.
A conta, naturalmente, sai do bolso de quem sempre paga: o contribuinte. Quando um presidente saúda bispos e elogia a democracia na mesma frase, o que ele está realmente dizendo é que pretende manter abertos os canais de repasse para entidades ligadas à Igreja, os convênios com pastorais, os programas sociais terceirizados para organizações católicas, toda a vasta rede de dinheiro público que escorre, silenciosa e contínua, para dentro de estruturas eclesiásticas sob o pretexto de assistência social. Não se trata de negar que parte desse trabalho exista ou tenha mérito. Trata-se de observar que ninguém grava mensagem para bispos por amor ao Evangelho quando há uma disputa geopolítica em curso entre Washington e o Vaticano. O gesto é uma jogada de posicionamento internacional travestida de afeto cristão, e os bispos, que não são tolos, aceitam o afago porque sabem exatamente o preço dele.
A crítica a Trump é reveladora pelo que esconde. Lula censurou o uso político de Jesus, como se ele próprio não estivesse, naquele exato instante, usando a Igreja Católica como peça de xadrez. A diferença é que Trump faz isso com a sutileza de um trator, e Lula faz com a malemolência de quem aprendeu nas CEBs que o discurso religioso é a embalagem mais eficiente para o produto político. A hipocrisia não está em um ou outro; está em ambos, e está sobretudo na imprensa que cobre um como cínico e o outro como estadista sensível. O mecanismo é velho como o Império Romano: o poder temporal corteja o poder espiritual quando precisa de legitimidade, e o poder espiritual aceita o cortejo quando precisa de proteção. Nada mudou em dois mil anos, só os figurinos.
O que deveria incomodar qualquer cidadão que paga impostos neste país não é que Lula elogie bispos ou que Trump provoque papas. O que deveria incomodar é que nenhum desses movimentos tem a menor relação com a vida concreta das pessoas que sustentam a máquina. O trabalhador que acordou hoje às cinco da manhã para pegar dois ônibus não será beneficiado por uma mensagem presidencial à CNBB. O pequeno comerciante que está sendo esmagado por tributos não terá alívio porque o presidente descobriu a democracia e a Igreja no mesmo parágrafo. Tudo isso é teatro, e teatro caro, bancado por quem não comprou ingresso e não pode sair da plateia. A fé que interessa ao Estado não é a que salva almas; é a que elege e protege governos. E enquanto o espetáculo continuar, a pergunta permanece sem resposta honesta: quem paga e quem recebe?
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.