O deputado federal Amom Mandel disse que "vereador e merda é a mesma coisa" e, antes que o leitor se escandalize com a grosseria, convém perguntar: onde exatamente está o erro factual? O Brasil mantém 58.168 vereadores espalhados por 5.570 municípios, boa parte dos quais não tem sequer semáforo, hospital funcional ou rua asfaltada, mas tem Câmara Municipal com ar-condicionado, assessores, carros oficiais e, naturalmente, o sagrado subsídio mensal pago pelo mesmo cidadão que espera seis meses por uma consulta no posto de saúde. Mandel propõe uma PEC para extinguir câmaras de vereadores em cidades pequenas ou, no mínimo, acabar com a remuneração desses cargos. A reação foi previsível: choveram notas de repúdio das associações de vereadores, como se o parasita tivesse direito de reclamar quando o hospedeiro resolve coçar.

Vamos aos números, que são a única linguagem que o poder não consegue falsificar por muito tempo. Um vereador de município com menos de dez mil habitantes recebe, em média, algo entre quatro e oito mil reais mensais. Parece pouco isoladamente, mas multiplique por treze vereadores, por treze salários anuais, por milhares de municípios, e o leitor chega a cifras que fariam corar até um contabilista de construtora com contrato no governo. Acrescente os custos indiretos: assessores, diárias, combustível, aluguel de imóvel para a Câmara, mobiliário, material de escritório, e aquele café requentado que é servido antes de cada sessão de quinze minutos onde se aprova por unanimidade a denominação de uma rua em homenagem ao avô do prefeito. Quem paga? O contribuinte, sempre ele, aquele ser abstrato que o político só enxerga de quatro em quatro anos, quando precisa do voto.

A PEC de Mandel, porém, peca pela timidez. Propor o fim do salário de vereador em cidade pequena é como propor que o assaltante devolva o relógio mas fique com a carteira. O problema não é o tamanho do município, é a própria lógica do arranjo. O sistema político brasileiro foi desenhado para multiplicar cargos, porque cada cargo é um ponto de distribuição de recursos públicos, e cada ponto de distribuição é um nó de uma rede eleitoral. Vereador em cidade de cinco mil habitantes não legisla coisa nenhuma, porque não há o que legislar: o município é regido por leis federais e estaduais, o orçamento é quase todo de repasse, e a Câmara existe apenas como ficção institucional para justificar a existência de uma classe política local que serve de correia de transmissão para o deputado estadual, que serve de correia para o federal, que serve de correia para o governador ou o ministro. É uma pirâmide, e na base, como em toda pirâmide, está quem paga a conta sem receber nada em troca.

O mais revelador nessa história toda não é a proposta em si, mas a reação. Quando Mandel chamou vereador de merda, a classe política não respondeu com dados, não mostrou produtividade legislativa, não apresentou um único indicador de que câmaras municipais justificam seu custo. Respondeu com indignação, que é o recurso retórico de quem não tem argumento. "Falta de respeito com a democracia", disseram, como se democracia fosse sinônimo de emprego público garantido para aliados locais. A democracia, se a palavra ainda significa alguma coisa, deveria ser o direito do cidadão de não ser obrigado a financiar instituições que não lhe servem. Mas no Brasil, democracia virou o nome bonito que se dá ao sistema de extração de riqueza dos que produzem para os que ocupam cargos.

Se a proposta prosperar, o que é improvável, porque pedir ao Congresso que reduza o número de políticos é como pedir ao lobo que vote pela cerca do galinheiro, ao menos terá servido para iluminar o óbvio: o Brasil não tem excesso de representação, tem excesso de representantes que não representam ninguém além de si mesmos. O verdadeiro escândalo não é um deputado ter sido grosseiro. O verdadeiro escândalo é que 58 mil pessoas recebem dinheiro público para exercer um cargo cuja principal atividade é garantir a própria reeleição. A pergunta que ninguém quer responder é simples: se todas as câmaras de vereadores do Brasil fechassem amanhã, o que exatamente mudaria na vida do cidadão comum? Se a resposta sincera for "nada", então sabemos quem está ganhando com o arranjo. E não é o contribuinte.

Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.