A agência de imigração dos Estados Unidos, o famigerado ICE, publicou no seu site a foto de Alexandre Ramagem ao lado de dados como idade, sexo, raça e unidade de detenção. O mesmo tratamento dispensado a qualquer imigrante ilegal apanhado numa blitz de rotina no Texas. Um sujeito que ontem era diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência e deputado federal está agora fichado como um guatemalteco que pulou o muro. A cena é de uma humilhação tão calculada que não pode ser acidental. Quando o Estado americano publica a foto de um preso estrangeiro com essa liturgia, não está apenas cumprindo protocolo burocrático; está mandando um recado. E o recado não é para Ramagem.

O que se vê aqui é a mecânica nua do poder entre Estados. O governo brasileiro entregou um cidadão seu, um ex-agente de inteligência com acesso a segredos de Estado, nas mãos de uma potência estrangeira que o trata como troféu de caça. E o governo americano o exibe como quem pendura um peixe na balança para a foto. Não há nenhuma cortesia diplomática, nenhum véu de respeito institucional, nenhuma nota conjunta falando em "cooperação entre nações amigas". Há uma ficha policial e uma foto de frente e perfil. A soberania nacional, aquele conceito que os políticos brasileiros adoram invocar em discursos de tribuna, se dissolve como açúcar no café quando o telefone toca de Washington. Sempre foi assim: soberania é artigo de luxo que países fracos exibem na vitrine mas nunca conseguem comprar.

A pergunta que todo cidadão com um mínimo de desconfiança saudável deveria fazer é: qual foi o preço? Nenhum Estado entrega um ex-chefe de inteligência de graça. Há sempre uma moeda de troca, um favor a ser cobrado depois, um aceno que não aparece no Diário Oficial. Quando a França entregou Dreyfus ao pelotão de fuzilamento da opinião pública, havia generais protegendo suas carreiras. Quando os romanos entregavam prisioneiros ilustres ao Senado para o triunfo, havia cônsules negociando províncias. A lógica não muda: siga o dinheiro, siga o poder, siga a cadeia de favores. Alguém em Brasília facilitou essa entrega com a mesma naturalidade com que se assina um despacho de rotina, e esse alguém espera algo em troca. Pode ser um acordo comercial, pode ser uma vista grossa em outra frente, pode ser apenas a manutenção do próprio cargo. Mas de graça, senhores, de graça não foi.

O mais revelador, porém, não é a prisão em si, mas a publicação ostensiva da ficha. O ICE não faz isso por acidente. É uma agência que opera sob ordens políticas precisas, e a decisão de exibir a foto de um ex-parlamentar brasileiro como quem cataloga gado numa feira tem uma função específica: demonstrar que o braço do Estado americano alcança qualquer um, em qualquer lugar, independentemente de títulos, cargos ou imunidades passadas. É o velho princípio do poder exemplar. Você não enforca o ladrão para punir o ladrão; você enforca o ladrão para que os outros dez pensem duas vezes. Ramagem é o exemplo. A plateia somos nós.

E enquanto o circo midiático se entretém com a foto, com a ficha, com o número da unidade de detenção, ninguém pergunta o óbvio: como é possível que um país que se diz soberano permita que seus ex-agentes de inteligência sejam fichados e exibidos publicamente por uma agência estrangeira sem que haja sequer um protesto formal? A resposta é simples e desagradável: porque o Brasil não é soberano na prática, apenas no papel. Soberania real exige capacidade de dizer não, e dizer não exige poder. E poder, no jogo entre nações, se mede em dólares, mísseis e vontade política. Nós não temos nenhum dos três em quantidade suficiente. O que temos é uma classe política que negocia seus compatriotas com a mesma facilidade com que negocia emendas parlamentares, sempre de olho na próxima eleição, nunca na dignidade do país que juraram servir. Ramagem, com sua ficha no site do ICE, é apenas o retrato mais recente de uma velha verdade: no balcão do poder internacional, o Brasil é sempre o produto, nunca o comprador.

Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.