Cheng Li-wun, recém empossada na cúpula do Kuomintang, fez a peregrinação de praxe a Pequim, ouviu o senhor do Partido Comunista Chinês falar bonito sobre reunificação pacífica, e agora arruma as malas para junho nos Estados Unidos, onde vai apertar mãos no Capitólio e tomar café em think tanks que vivem de prescrever a política externa do Ocidente. A coreografia é tão coreografada que dá vontade de aplaudir o figurino. Primeiro o anel oriental, depois o aperto de mão ocidental, e no meio uma ilha de vinte e três milhões de almas que ninguém realmente consultou sobre o roteiro.
Convém olhar o esqueleto da coisa antes da maquiagem. Se a oposição taiwanesa precisa de bênção em Pequim para depois pedir bênção em Washington, então Taiwan não é um país soberano em sentido pleno, é um condomínio sob tutela compartilhada, onde os síndicos brigam pela administração e cobram taxa dos moradores. A retórica oficial fala em autodeterminação, autonomia, democracia vibrante. A prática mostra políticos correndo entre dois imperadores para garantir que continuem sendo políticos. As coisas são o que fazem, não o que dizem ser.
E aí entra a pergunta que ninguém quer fazer em voz alta: quem paga essa peregrinação dupla e quem recebe? Paga o contribuinte taiwanês, que sustenta um aparato político cuja sobrevivência depende da boa vontade de potências estrangeiras. Recebe o complexo industrial dos dois lados, os fabricantes de mísseis que vendem para Taipé com o aval de Washington, os fabricantes de promessas que vendem reunificação em Pequim, os escritórios de lobby da Avenida K que faturam alto cada vez que um líder asiático vem bater na porta com cheque na mão. Geopolítica, no varejo, é sempre comissão.
Os think tanks norte americanos que vão receber Cheng não são instituições contemplativas dedicadas ao saber desinteressado. São fundações financiadas por empreiteiros militares, por doadores com interesses muito concretos no estreito de Taiwan, por governos amigos que pagam consultorias caríssimas para que determinada narrativa seja repetida em audiências do Congresso. Quando se diz que a viagem busca diálogo com a sociedade civil americana, traduza: busca patrocinadores e seguros políticos. Toda capital imperial tem seus oráculos pagos, e os oráculos sempre dizem aquilo que o pagador quer ouvir.
O detalhe mais saboroso é o silogismo embutido na biografia recente da presidente do KMT. Reuniu se com Xi e ouviu o discurso da família chinesa unida. Agora vai aos Estados Unidos prometer que a relação com Pequim, sob seu partido, será de pragmatismo e estabilidade. Tradução para quem ainda fala português sem treinamento diplomático: pretende vender a Washington a ideia de que o KMT é o anteparo razoável contra uma guerra, enquanto vende a Pequim a ideia de que é o caminho razoável para a reunificação. As duas promessas são logicamente incompatíveis. Uma das plateias está sendo enganada, e a história ensina que normalmente são as duas.
No fim, o teatro é antigo e o roteiro é o de sempre. Pequenos países que servem de tabuleiro pagam com sua liberdade, com seus impostos e com o sangue de seus filhos a fatura dos jogos imperiais alheios. Os políticos locais, esses, viajam de classe executiva, jantam em Washington, brindam em Pequim e voltam para casa explicando ao povo que tudo aquilo foi pelo bem da nação. Quem paga continua sendo o cidadão comum. Quem recebe continua sendo o cartel da influência global. E a ilha segue equilibrada na corda bamba, com dois palhaços puxando cada uma das pontas e cobrando ingresso para o espetáculo.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.