Neste domingo abrem as apostas para o concurso especial de trinta anos da Mega-Sena, sorteio marcado para o dia 24, e a imprensa oficiosa trata o evento como se fosse aniversário de criança, com bolo, vela e fotografia. Convém, antes do entusiasmo, fazer a conta fria que ninguém faz em horário nobre: de cada real apostado, menos da metade volta em forma de prêmio. O resto evapora num labirinto de rubricas nobres, seguridade social, esporte, cultura, segurança pública, financiamento estudantil, fundo penitenciário, uma sopa de letrinhas que serve para uma coisa só, justificar moralmente o que em qualquer outro contexto seria chamado pelo nome técnico correto, agiotagem com monopólio.

O truque é antigo e funciona porque a aritmética é chata e a esperança é gratuita. Quando um sujeito qualquer monta uma rifa na esquina, é contravenção, polícia, delegacia, manchete indignada. Quando o mesmo mecanismo, com probabilidade pior, é operado pelo banco oficial da União, vira política pública, programa de governo, instrumento de fomento. A diferença não está no jogo, está em quem detém o monopólio da banca. O Estado descobriu, há séculos, que a maneira mais eficiente de extrair dinheiro do pobre é convencê-lo de que está participando voluntariamente de algo. A loteria é o imposto perfeito porque o contribuinte agradece ao pagador de cabeça baixa.

Vale lembrar que loterias estatais não são invenção brasileira nem novidade republicana. Repúblicas italianas do século dezesseis financiavam guerras com tômbolas, monarquias absolutistas pagavam dívidas com bilhetes numerados, e o padrão se repete com precisão de relógio suíço: governo quebrado, povo crédulo, sorteio milagroso. A Caixa não inventou nada, apenas industrializou o esquema com publicidade colorida, jingles cativantes e a aura simpática de um banco que finge ser benfeitor enquanto opera como casa de jogo com alvará vitalício. Trinta anos de Mega-Sena são trinta anos de uma máquina de transferência de renda no sentido inverso ao da propaganda, do bolso do pedreiro que aposta vinte reais por semana para o orçamento de fundações, conselhos e secretarias que ele jamais visitará.

A defesa habitual é conhecida e desonesta: ninguém é obrigado a jogar. Verdade técnica, mentira prática. Ninguém é obrigado, mas a propaganda é onipresente, o monopólio é absoluto, e a alternativa privada é criminalizada. Se houvesse competição real, com casas obrigadas a divulgar com clareza a probabilidade ridícula de um em cinquenta milhões e o percentual confiscado antes do prêmio, o cidadão escolheria com informação. Não há. Há apenas o balcão único, o globo girando no domingo à noite e o locutor entusiasmado anunciando que ninguém acertou, acumulou, e na semana que vem o bolão da firma vai tentar de novo. A liberdade de apostar existe; a liberdade de saber o que se está apostando, não tanto.

O mais delicioso do espetáculo é a celebração. Comemorar trinta anos de loteria estatal com a mesma pompa com que se celebraria a invenção da penicilina diz mais sobre o país do que qualquer pesquisa de opinião. Uma nação que faz festa de aniversário para o próprio confisco voluntário já entregou o jogo antes da primeira dezena. O sorteio do dia 24 produzirá, com sorte, um ou dois milionários instantâneos cujas fotos servirão de combustível emocional para mais dez anos de arrecadação. Os perdedores, oitenta milhões de bilhetes rasgados, voltarão na quarta para tentar de novo, porque a esperança, ao contrário do dinheiro, o Estado ainda não conseguiu tributar diretamente, apenas indiretamente, vendendo-a a varejo no caixa da padaria.

Então fica a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste país: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito da fila, o que separa a nota de dez do troco do almoço para apostar no sonho da casa própria. Recebe o orçamento da União, a estrutura administrativa que vive da arrecadação, os beneficiários institucionais das rubricas obrigatórias e, no fim da fila, com sorte, um apostador anônimo cuja foto vai estampar o próximo cartaz publicitário. Trinta anos depois, o aniversariante de verdade não é a Mega-Sena. É o cofre.

Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.