Segunda-feira, horário nobre, câmeras abertas: Thiago Gardinali apresenta ao Brasil um cartaz de posto de gasolina que supostamente comprova misoginia estrutural no setor de combustíveis. A narrativa estava redonda, o tom estava certo, o público estava pronto para se indignar. Havia apenas um detalhe menor, quase irrelevante para o contexto: a imagem era falsa. Gerada por inteligência artificial, fabricada do nada, sem posto, sem cartaz, sem misoginia real. Só a pauta, que precisava existir e então existiu.

Vamos fazer aqui o exercício elementar que o jornalismo esqueceu de fazer antes de ir ao ar: se uma afirmação depende de uma prova, e a prova é falsa, a afirmação não existe. Não é "contextualizada diferente", não é "merecedora de apuração adicional", não é "um erro de boa-fé num ambiente de informação acelerada". Não existe. O raciocínio não é complicado. É o tipo de coisa que se aprende antes de aprender a amarrar o sapato. Mas a televisão brasileira descobriu há muito tempo que a conclusão falsa divulgada ao vivo tem vida útil de semanas, enquanto a correção publicada depois tem vida útil de quinze minutos numa nota de rodapé que ninguém lê.

Agora segue o dinheiro, que é sempre onde a história fica interessante. O SBT é uma empresa comercial. Vende audiência para anunciantes. Audiência se constrói com emoção, e nenhuma emoção é mais barata de fabricar do que indignação moral. Um cartaz misógino num posto de gasolina é perfeito: é concreto, é visual, é fácil de odiar, não exige contexto, não demanda pesquisa, dispara o reflexo pavloviano do telespectador médio que quer sentir que o mundo é um lugar terrível e que ele, ao assistir, está fazendo alguma coisa a respeito. A pergunta que o jornalismo honesto faria antes de exibir a imagem é também a pergunta mais cara de fazer: isso é verdade? E é cara porque atrasar a pauta para verificar a pauta significa perder o ciclo de indignação para o concorrente que não verificou.

O mecanismo tem história. Não é invenção da inteligência artificial nem da era digital. Jornais sensacionalistas do século XIX mandavam repórteres inventar histórias de crimes que nunca aconteceram porque o leitor comprava o jornal para se horrorizar, não para se informar. A IA só barateou o custo de produção do falso. Antes era preciso contratar um fotógrafo para falsificar uma cena. Hoje é questão de digitar um prompt e esperar trinta segundos. A tecnologia mudou. A lógica econômica é exatamente a mesma: produz-se o que vende, e o que vende é o que provoca, e o que provoca não precisa necessariamente ter acontecido.

O que incomoda de verdade nessa história não é o apresentador, que é peça substituível numa engrenagem maior. É a naturalidade com que o episódio será absorvido, catalogado como "erro" e esquecido até a próxima vez. Nenhuma estrutura muda. Nenhum processo de verificação é implementado. Nenhum anunciante retira verba. O telespectador que acreditou na misoginia do posto continua acreditando, porque a correção não chegou até ele com a mesma energia da mentira original. E o apresentador que foi ao ar com uma imagem que qualquer pessoa com dez minutos de Google teria desmentido continua no emprego, porque o contrato não é com a verdade. O contrato é com a audiência. E a audiência, demonstrou-se mais uma vez, não precisa que a informação seja real para reagir como se fosse.

Quem paga é o telespectador, que entrega atenção e recebe ficção. Quem recebe é a emissora, que converte essa atenção em faturamento publicitário. A misoginia do posto de gasolina nunca existiu. A industria que lucrou com ela existe muito bem, obrigado.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.