O Índice Tadawul All Share recuou 1,30% no pregão desta sessão e, de novo, a praça de Riade lembrou ao mundo que a economia saudita continua sendo uma commodity com bandeira em cima. Toda a encenação de diversificação, os arranha-céus verticais no deserto, os megaprojetos de turismo em cidades que ninguém pediu, os fundos soberanos comprando clubes de futebol na Europa, nada disso muda o fato aritmético trivial de que quando o barril balança, o reino inteiro treme junto. E o pior é que os analistas de terno em Londres fingem surpresa toda vez, como se fosse novidade que uma economia dependente de um único produto se comporta exatamente como uma economia dependente de um único produto.
Olha, o interessante não é a queda de 1,30% em si, isso é ruído estatístico num mercado emergente qualquer. O interessante é o que a queda revela sobre a natureza do arranjo. A bolsa saudita não é bolsa no sentido ocidental do termo, é um apêndice do palácio real, um instrumento onde a família reinante controla via Aramco, via fundo soberano, via bancos estatais, a esmagadora maioria da capitalização listada. Quando você vê Tadawul cair, não está vendo milhões de agentes descentralizados calculando valor presente de fluxo de caixa, está vendo um único ator dominante ajustando expectativas sobre um único ativo dominante. É preço, mas não é mercado.
Quer dizer, siga o dinheiro e a coisa fica mais clara. O fundo soberano injeta petrodólares em empresas que dependem do fundo soberano, que fazem obras que só existem porque o fundo soberano decidiu que devem existir, que geram receitas que aparecem nos balanços do fundo soberano, que reinveste em outras empresas do mesmo circuito. É um moto-contínuo cuja única bomba d’água é o poço de petróleo. Retire a bomba, o moto para. E não é preciso ser vidente para perceber que a bomba envelhece: a demanda global por combustível fóssil vai se reorganizar nas próximas décadas, e nenhum planejador de cima consegue reordenar uma economia inteira por decreto, por mais visionário que se ache o príncipe herdeiro.
Há uma lição antiga aqui que os europeus já aprenderam com a doença holandesa, os venezuelanos aprenderam do modo mais brutal, os russos fingem que aprenderam. Riqueza fácil, extraída do chão sem esforço produtivo distribuído, corrói a base empreendedora de uma sociedade. Onde o Estado tem dinheiro demais e o cidadão tem responsabilidade de menos, ninguém precisa inventar nada, ninguém precisa competir, ninguém precisa poupar. O resultado é um deserto econômico que continua deserto por baixo do vidro espelhado dos shoppings. A queda de hoje é um sussurro, mas o sussurro fala de algo estrutural que barril nenhum resolve.
Me diz uma coisa, por que o investidor ocidental continua tratando o Golfo como reserva de valor sofisticada, quando o que está lá é essencialmente uma alavancagem gigantesca sobre uma única variável macroeconômica que, ela própria, depende de fatores geopolíticos que ninguém controla? A resposta honesta é que o dinheiro grande adora narrativa, e a narrativa do príncipe modernizador vende bem em conferência com champanhe. Só que narrativa não paga dividendo, caixa paga. E caixa saudita é caixa de petróleo, com traje novo, sotaque em inglês e apresentação em PowerPoint.
A queda de 1,30% vai ser esquecida amanhã, engolida por qualquer manchete sobre corte de produção da OPEP ou nova cimeira em Davos. Mas o padrão fica: nenhuma quantidade de neon no deserto substitui a construção paciente de uma economia produtiva de baixo para cima, feita por milhões de pequenos empreendedores livres para errar, acertar, quebrar e recomeçar. Enquanto isso não existir em Riade, o Tadawul continuará sendo o termômetro mais fiel de uma febre que ninguém quer diagnosticar.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.