O brasileiro tem um talento curioso para escolher seus inimigos. Vê uma aranha pendurada na quina da janela e age como se Átila tivesse acabado de invadir a cozinha, vassoura na mão, grito na garganta, manhã arruinada. Enquanto isso, paga sem chiar uma carga tributária que devora quarenta por cento de tudo que produz, e ainda agradece quando recebe de volta, em forma de buraco na rua e fila no posto de saúde, uma fração ridícula do que entregou. A aranha, coitada, cobra zero. Come barata, come mosquito, come aquele pernilongo que zumbe no ouvido às três da manhã. Presta serviço gratuito, silencioso, eficiente. Mas é ela a perseguida.
A presença do bicho no jardim ou no canto do banheiro raramente significa infestação. Significa que existe alimento, umidade, frestas, sombra. A aranha é sintoma, não causa. Onde ela aparece, há um ecossistema funcionando, com cadeia alimentar montada, equilíbrio espontâneo, ordem nascida sem decreto. Ninguém regulamentou aquilo. Nenhum ministério baixou portaria determinando que tantas aranhas por metro quadrado seriam toleradas mediante taxa de fiscalização. A natureza, indiferente aos burocratas, organiza o quintal melhor do que qualquer secretaria municipal organiza um cruzamento de duas ruas.
Para afastar o aracnídeo, a receita é antiga e dispensa consultor. Limpeza nos cantos, vedação de frestas, controle da umidade, retirada de entulho, poda do mato rente à parede. Coisa de avó, não de aplicativo. Folha de louro, vinagre, óleos essenciais de hortelã ou eucalipto funcionam como repelente porque a aranha detesta odor forte, exatamente como o contribuinte deveria detestar o cheiro de aumento de alíquota travestido de reforma. Tudo que se precisa fazer cabe num sábado de manhã e custa menos do que um almoço. Sem alvará, sem licenciamento, sem agente público batendo à porta para verificar se o spray caseiro está dentro das normas técnicas.
É instrutivo que ninguém proponha uma campanha nacional contra mosquito sem antes contemplar a criação de uma agência reguladora, um fundo, uma frente parlamentar, um comitê interministerial. A história recente está cheia de programas pomposos para combater dengue que custaram bilhões e renderam, no fim, mais dengue. A aranha, sem orçamento, sem rodapé de logotipo, sem coletiva de imprensa, mata mais vetor por noite do que qualquer fumacê municipal num verão inteiro. E o sujeito ainda assim a esmaga com o chinelo, convicto de que está prestando um serviço à civilização.
Há, claro, espécies de fato perigosas, marrom, armadeira, viúva negra, e contra essas vale o cuidado redobrado, sapato sacudido antes de calçar, roupa de varal inspecionada, lenha empilhada longe da casa. Mas a esmagadora maioria das oito patas que cruzam o caminho do morador comum é inofensiva, tímida, mais assustada com o gigante de chinelo do que o gigante com ela. Saber distinguir o que ameaça do que apenas incomoda é exercício de inteligência elementar, e talvez seja exatamente esse músculo atrofiado que explica por que o eleitor mediano também não distingue o político que rouba do político que finge que protege.
No fim, conviver com a aranha é lição barata sobre a vida adulta. Nem tudo que assusta merece ser combatido, nem tudo que se anuncia como proteção protege, e quase sempre a solução mais elegante é menos ação, não mais. Se o cidadão tratasse o Estado com a mesma vassoura com que trata o aracnídeo, e o aracnídeo com a mesma reverência com que trata o Estado, viveria em casa mais limpa, jardim mais saudável e bolso visivelmente mais cheio. A teia mais perigosa desta república nunca foi tecida no forro do telhado.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.