A ARC Group Acquisition I, uma daquelas SPACs que existem no papel como carta de intenção com CNPJ, anunciou a aquisição da Firstborn Top Capital pela bagatela de um bilhão e noventa milhões de dólares. Uma casca de noz comprando outra casca de noz, e o mercado registra o valor como se estivesse contabilizando aço, petróleo ou trigo. Não há fábrica, não há colheita, não há caminhão saindo do pátio. Há um contrato, um ticker, e uma promessa de que alguém, em algum lugar, vai transformar isso em algo palpável antes que os investidores acordem do transe.
Convém lembrar o que é uma SPAC para quem ainda tem a decência de perguntar. Você monta uma empresa sem operação, sem produto, sem receita, apenas com um cofre cheio de dinheiro captado no IPO e uma vaga narrativa de que vai encontrar um alvo interessante para comprar em até dois anos. É o cheque em branco institucionalizado, vendido no varejo como oportunidade de entrar cedo no próximo unicórnio. Nove entre dez terminam abaixo do preço de emissão, e mesmo assim a fila continua andando, porque a memória do investidor mediano tem a durabilidade de uma manchete de terça.
Agora siga o dinheiro, porque é aí que a mágica desmancha. Quem ganha na estrutura do SPAC não é o cotista que embarcou acreditando na revolução tecnológica prometida no pitch deck. Quem ganha são os patrocinadores, que ficam com fatias generosas do capital por terem, veja bem, tido a ideia de criar o veículo. Ganham os bancos que estruturaram a operação e cobraram taxas em cada etapa. Ganham os advogados que redigiram trezentas páginas de prospecto. E ganha, sempre, a empresa comprada, que via SPAC pula toda a burocracia do IPO tradicional e vai listada na bolsa sem passar pelo escrutínio que o processo convencional exigiria. O varejo entra pagando a conta desse arranjo, e sai quando percebe que comprou nevoeiro precificado como diamante.
Um bilhão e noventa milhões é um número que deveria significar algo. Deveria representar produtividade acumulada, poupança real, capital construído com trabalho e adiamento de consumo. Em vez disso, num ambiente monetário onde o crédito foi expandido além de qualquer racionalidade nas últimas duas décadas, esse valor passa a ser apenas uma etiqueta colada num acordo entre dois veículos que existem mais como abstração jurídica do que como realidade produtiva. Quando o dinheiro é fabricado sem lastro, os preços dos ativos financeiros perdem a âncora, e coisas que valeriam cem milhões num mundo sóbrio recebem um zero adicional só porque a torneira monetária não fechou.
O que se vê é o anúncio bombástico, a manchete elogiosa, o gráfico saltando. O que não se vê é o capital que poderia estar financiando uma indústria real, uma cadeia produtiva concreta, uma inovação verificável, e que foi drenado para alimentar essa engenharia de casca de noz. O que não se vê são os cotistas que vão ficar segurando ações depreciadas quando a fusão se materializar e o balanço combinado revelar que a soma de duas ficções não produz uma verdade. O boom sempre parece bonito por dentro. O bust é que ensina, e ensina caro, sempre com o dinheiro dos que menos entenderam o que estava sendo vendido.
Mercado livre pressupõe informação honesta, preços não manipulados e responsabilidade de quem toma risco. SPAC virou o oposto disso: opacidade estruturada, valuation inflado por liquidez artificial e um sistema de incentivos onde quem monta o esquema ganha independentemente do resultado. Não é capitalismo, é sua caricatura. E toda vez que essa caricatura desfila com um cifrão de dez algarismos, alguém em Washington ou em Frankfurt aperta mais um botão da impressora e finge que o problema é a ganância dos outros.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.