Existe uma frase que circula em apresentação de PowerPoint, em parede de escritório de coworking, em camiseta de palestrante careca, em legenda de Instagram de empresário que vende curso para empresário que vende curso. Ela diz, com toda a pompa de oráculo grego, que a excelência nunca é acidente, e por aí vai. O detalhe escabroso, que ninguém na indústria do otimismo executivo faz questão de mencionar, é que o suposto autor jamais escreveu aquilo. A frase é uma paráfrase grosseira, uma adaptação tardia, uma colagem feita por algum tradutor anglófono do século vinte que precisava encher linguiça num livro de autoajuda. Atribuíram ao filósofo porque nome de morto antigo vende, e morto antigo não processa.
Repare no mecanismo, porque ele se repete em toda fraude cultural. Pega-se um pensamento qualquer, dilui-se a complexidade até virar caldo de galinha, cola-se o nome de uma autoridade respeitável e despacha-se o produto para o mercado da preguiça intelectual. O consumidor, que jamais leu uma linha sequer da Ética a Nicômaco, sente-se erudito ao compartilhar a citação no LinkedIn. O palestrante, que também nunca leu, fatura quinze mil reais para repetir a frase em evento de RH. O coach, que mal consegue conjugar verbos, transforma a paráfrase em método, em mentoria, em imersão de fim de semana com hidratação inclusa. Todos saem ganhando, exceto a verdade, que não tem departamento jurídico.
E aqui mora a parte rothbardiana da brincadeira, ainda que ninguém queira encarar de frente. Esse mercado existe porque existe uma demanda gigantesca por atalho. O sujeito não quer cultivar virtude ao longo de décadas de prática repetida, ele quer um adesivo no notebook que o autorize a se sentir excelente já no café da manhã. A frase falsificada cumpre função de indulgência, aquele papelzinho medieval que se comprava para furar a fila do paraíso. Pagou, está salvo. Compartilhou, está culto. Imprimiu em moldura, virou mentor. O capital que circula nessa economia de simulacro é estratosférico, e ele sai do bolso de gente que poderia estar comprando livro, ferramenta, tempo de estudo, qualquer coisa que produzisse, de fato, a tal excelência prometida.
O silogismo é brutal na sua simplicidade. Excelência exige esforço sincero ao longo do tempo. Frase motivacional dispensa esforço e promete resultado imediato. Logo, frase motivacional é o oposto matemático da excelência que ela diz pregar. É como vender dieta para quem está comendo o folheto. A indústria do desenvolvimento pessoal vive da contradição entre o que anuncia e o que entrega, e prospera justamente porque o cliente prefere o conforto do slogan ao desconforto da disciplina. Se virtude se adquirisse por citação, o Instagram seria uma assembleia de santos, e qualquer um percebe, olhando ao redor, que não é bem assim.
O mais cômico é que o pensamento original, aquele que de fato foi escrito pelo grego há vinte e três séculos, é infinitamente mais radical e desconfortável do que a versão pasteurizada que circula nos seminários corporativos. O argumento real é que a virtude é hábito, repetição teimosa do ato correto até que ele se torne segunda natureza. Ou seja, anos de prática silenciosa, sem aplauso, sem audiência, sem story patrocinado. Ninguém vende isso porque ninguém compra. Disciplina não cabe em camiseta. Constância não rende engajamento. A verdade, como sempre, é grátis e por isso desprezada, enquanto a mentira chega embrulhada em papel celofane e cobra royalties.
Quem ganha com tudo isso é um cartel de profissionais da palavra fácil, que transformou sabedoria antiga em commodity descartável. Quem perde é o pobre coitado que sai do evento achando que mudou de vida porque ouviu uma frase de para-choque de caminhão recitada com microfone de lapela. Da próxima vez que aparecer no seu feed uma citação de filósofo morto, faça o exercício honesto de procurar a fonte original. Em nove vezes de dez, descobrirá que o defunto ilustre nunca disse aquilo, e que alguém, em algum lugar, está faturando alto vendendo a barba dele em forma de frase.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.