O número é cristalino e por isso mesmo desconfortável: a arrecadação do Imposto sobre Operações Financeiras saltou 29,5% em abril, engordando os cofres federais em R$ 1,8 bilhão depois que o Executivo, com a desenvoltura de quem mexe em gaveta alheia, editou um decreto em 2025 alterando alíquotas. Repare na palavra: decreto. Não foi lei discutida, não foi emenda votada, não foi pacto social. Foi um pedaço de papel assinado num gabinete refrigerado por servidores que jamais sentirão na pele o peso do que despacharam. O cidadão acordou mais pobre por correspondência.
Chamar isso de imposto é quase elegante demais. O IOF nasceu como instrumento regulatório, ferramenta supostamente técnica para conter excessos do crédito e do câmbio, e foi se transformando, ano após ano, naquela velha torneira de emergência que o governo abre toda vez que descobre, com fingida surpresa, que gastou mais do que tinha. É a mesma lógica do senhor feudal que, ao notar o castelo precisando de reformas, simplesmente aumenta a corveia dos camponeses. Muda o vocabulário, muda o figurino, mas a coreografia é a mesma desde que o mundo é mundo: alguém produz, alguém confisca, alguém festeja.
Sigamos o dinheiro, porque o resto é fumaça. Esse R$ 1,8 bilhão extra não brotou de uma mina de ouro recém descoberta nem de um surto produtivo dos brasileiros. Saiu de quem tomou crédito para fechar o mês, de quem mandou recursos para fora, de quem fez câmbio para uma viagem, de quem contratou seguro, de quem se atreveu a movimentar o próprio patrimônio. Cada operação financeira virou pedágio, e o pedagiado, claro, não é nenhuma multinacional onipotente; é o pequeno empresário que rola dívida, é a família que parcela a geladeira, é o aposentado que troca dólar para visitar o neto. A retórica fala em justiça tributária; a aritmética cobra de quem não tem advogado tributarista.
E aqui entra a parte que ninguém quer encarar de frente: se aumentar imposto fosse tão indolor quanto a propaganda oficial insinua, por que então o governo não consulta o Congresso, não convoca plebiscito, não pede licença? Justamente porque sabe que pedir licença custa caro em capital político, e tomar à força sai mais barato. A premissa é simples, a conclusão é inevitável: quando o poder pode tirar sem perguntar, ele tirará sem perguntar, e o limite dessa subtração é apenas a capacidade de resistência do otário do outro lado do balcão. Como a resistência anda baixa, o apetite anda alto.
Há ainda o detalhe cômico, daquele humor amargo que só a vida pública brasileira fornece em escala industrial: o mesmo Estado que jura combater a desigualdade financia, com esse dinheiro extraído à força, uma máquina administrativa onde o auxiliar de gabinete ganha mais que o engenheiro que projeta a ponte. O imposto sobe para custear quem cobra o imposto, num moto contínuo perfeito, autossustentável, em que a parasita engorda enquanto o hospedeiro definha. Chamam isso de política fiscal responsável. No século XIX, em latim, chamavam de outra coisa, e ninguém precisava de tantos eufemismos.
Resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre tributação: quem paga e quem recebe? Paga o sujeito que acorda às cinco, que assina cheque para honrar fornecedor, que rola um cartão para não ficar no vermelho. Recebe a engrenagem que vive de decreto, o orçamento que cresce na razão direta da paciência alheia, a casta que descobriu, há tempos, que governar no Brasil é menos uma vocação e mais um modelo de negócios. Vinte e nove vírgula cinco por cento a mais não é eficiência arrecadatória; é a confissão escrita de que, enquanto houver bolso, haverá mão.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.