Existe uma frase antiga que compara a riqueza à água do mar: quanto mais se bebe, mais sede se tem. Repare na precisão cirúrgica da imagem. Não é uma reclamação moralista contra o dinheiro, dessas que padre fala no domingo para a plateia já cansada de ouvir. É uma constatação fisiológica do desejo humano. A água salgada mata por desidratação justamente porque parece matar a sede. O sujeito bebe, sente alívio momentâneo, e duas horas depois está mais ressecado que antes. Com a riqueza convertida em medida de valor pessoal, acontece a mesma química. O segundo carro não satisfaz mais do que o primeiro. A segunda casa pesa mais do que aquece. E a fama, essa droga social, exige doses crescentes para produzir o mesmo formigamento de importância.
Acontece que ninguém lucra mais com a sede alheia do que o vendedor de água salgada. E o maior vendedor de água salgada do planeta atende pelo nome de Estado moderno, com sua corte de publicitários, reguladores e moralistas profissionais. O cidadão que vive em paz com seu pedaço de chão, sua família e seu ofício é um péssimo contribuinte emocional. Não consome o suficiente, não se endivida o suficiente, não inveja o suficiente. Já o cidadão sedento, esse sim é a galinha dos ovos de ouro do arranjo. Trabalha mais para pagar mais imposto, financia o consumo conspícuo via crédito subsidiado, vota em quem promete tirar do vizinho aquilo que ele próprio cobiça. A inveja é o combustível mais barato que a engenharia política já descobriu.
Note o silogismo simples que ninguém quer enunciar em voz alta. Se o desejo é infinito por natureza, e se a renda é finita por aritmética, então qualquer sistema que prometa saciar o desejo via renda está mentindo na largada. A premissa maior é biológica, a menor é matemática, a conclusão é inevitável. Mas o discurso oficial, da propaganda governamental ao marketing das corporações que mamam no governo, inverte tudo. Vende a ilusão de que mais um programa social, mais um financiamento, mais um benefício fiscal vai finalmente apagar a queimação na garganta. Não vai. Foi calculado para não apagar. Cidadão satisfeito é eleitor que dispensa salvador.
O truque é antigo, vem dos imperadores romanos que descobriram que pão e circo custam menos que legiões. Distribui-se uma migalha de água salgada disfarçada de favor público, e o beneficiário aplaude o monopolista da própria sede. A diferença é que hoje a coisa veste terno, fala em jargão de sustentabilidade e cobra por aplicativo. O sujeito recebe um auxílio, paga inflação que come o auxílio, financia o carro popular cujo preço subiu por causa do subsídio, e ainda agradece pelo privilégio. É a química da água do mar aplicada ao orçamento doméstico. Bebeu, achou que matou a sede, acordou no dia seguinte mais ressecado, com a carteira mais leve e a alma mais barulhenta.
A saída não é o ascetismo de monge nem o moralismo de quem inveja o vizinho rico e chama isso de virtude. A saída é olhar para o copo antes de beber e perguntar quem encheu, com o quê, e quanto vai cobrar pelo gole. Riqueza honesta, fruto de trabalho voluntário e troca livre, mata a sede como água doce, porque vem acompanhada do senso de proporção que só o esforço próprio ensina. Riqueza extraída do bolso alheio via tributo, subsídio ou inflação é água salgada pura, e por isso mesmo vicia. O sintoma de que se está bebendo da torneira errada é simples: quanto mais se tem, mais se precisa correr atrás. Quem corre atrás do próprio rabo, ainda que de Ferrari, continua girando em círculo.
Por isso o diagnóstico daquela frase velha continua tinindo. Não porque pregue pobreza, mas porque expõe o golpe. O desejo desmedido não nasce dentro do sujeito por acidente, ele é cultivado, irrigado e colhido por quem ganha com a colheita. Cada propaganda oficial que transforma cidadão em consumidor de favor, cada regulação que cria escassez artificial para depois vender a solução, cada imposto que confisca o presente em nome de um futuro que nunca chega, é um copo a mais de água salgada empurrado goela abaixo. E quando se pergunta, no fim do mês ou no fim da vida, por que a sede só piorou, a resposta está no rótulo da garrafa que ninguém leu. Quem paga é sempre o mesmo. Quem recebe também.
Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.