O número é tão pequeno que parece erro de digitação. Sami Al-Jaber e Salem Al-Dawsari, os dois maiores artilheiros da seleção saudita em todas as Copas do Mundo somadas desde 1994, marcaram três gols cada. Três. O mesmo placar que um atacante decente faz num campeonato estadual qualquer no interior do Brasil entre março e abril. E ainda assim, esses três gols de cada um bastam para colocá-los no topo de uma lista que mais parece epitáfio do que ranking, lembrança gentil de que dinheiro compra estádio, contrata jogador estrangeiro, paga propaganda em rede global, mas não compra aquilo que não está à venda no balcão de Riad.
É preciso entender o tamanho da brincadeira. O reino que despeja bilhões na Saudi Pro League para sequestrar craques no fim de carreira, que arrematou um Mundial de 2034 com a sutileza de quem compra um terreno num leilão sem outros participantes, que financia federações, comissões, tribunais esportivos e tudo o mais que tenha letras maiúsculas e logotipo dourado, esse mesmo reino chega às Copas e produz, em três décadas de tentativas, uma artilharia de seleção que o mais tosco dos centroavantes brasileiros faria entre uma temporada e outra. A bola, criatura ingrata, recusa-se a obedecer ao xeque.
Há algo profundamente educativo nesse contraste, e é nisso que ninguém quer prestar atenção. Quando o Estado, ou o equivalente monárquico dele, decide que vai fabricar grandeza esportiva por decreto e cheque em branco, o resultado costuma ser exatamente esse, um museu de troféus comprados e uma vitrine vazia de talento próprio. O dinheiro que sai do petróleo, que por sua vez sai do subsolo de uma população que jamais foi consultada sobre como gastar a herança coletiva, financia uma vitrine global de prestígio enquanto a base, o jogo de rua, a meritocracia silenciosa do moleque que aprende a driblar antes de aprender a ler, definha pelo simples motivo de que ninguém precisa se esforçar quando o Estado paga a conta.
Compare-se com qualquer país que produz craques em série. Brasil, Argentina, Uruguai, Croácia, Sérvia, Gana. São nações onde o futebol nasceu na pelada, no terreno baldio, no improviso da pobreza criativa, e foi essa dureza que forjou gerações capazes de marcar três gols num único jogo, não em três Copas. O talento não brota onde a vida é fácil; brota onde o moleque precisa do gol para comer, para fugir, para virar alguém. Riad, com suas avenidas climatizadas e seu petróleo que paga tudo, jamais entendeu essa equação porque ela não cabe em planilha de planejamento estatal.
E aqui está o silogismo que o marketing saudita não consegue enterrar com nenhuma cifra. Se grandeza esportiva fosse comprável, os emirados já seriam pentacampeões. Não são. Logo, grandeza esportiva não é comprável. O que se compra é a aparência, o pacote, o circo montado para distrair de outras coisas que o regime prefere que ninguém olhe de perto, como direitos humanos, dissidência, jornalistas esquartejados em embaixadas. O futebol vira biombo dourado, fachada com luzes de neon para esconder o que está atrás da cortina. Funciona com torcedor distraído, mas não funciona com goleiro adversário.
Restam, portanto, Al-Jaber e Al-Dawsari, dois sujeitos honestos que fizeram o que puderam dentro de um sistema que jamais lhes deu a estrutura competitiva real para ir além. Não é demérito deles, é demérito do projeto que os cercou. E enquanto o petrodólar continuar tentando comprar aquilo que só se constrói com tempo, suor e liberdade para errar, a lista de artilheiros sauditas seguirá sendo o que é hoje, um lembrete elegante de que o dinheiro do contribuinte fantasma do reino, transformado em pompa global, não rola na grama. A grama, essa, continua respondendo apenas a quem treinou de verdade.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.