Um drone, daqueles que cabem no porta malas de um sedan, atravessou o espaço aéreo mais bem patrulhado do golfo Pérsico e ateou fogo num gerador elétrico a metros do perímetro da usina nuclear de Barakah, nos Emirados Árabes Unidos, neste domingo. O regime de Abu Dhabi correu para garantir que o reator está intacto, que nada vazou, que está tudo sob controle. Toda vez que um governo precisa repetir três vezes que está tudo sob controle, é porque não está.
Barakah não é uma usininha qualquer. É a joia da coroa energética dos Emirados, o primeiro complexo nuclear comercial do mundo árabe, quatro reatores construídos pelos sul coreanos por mais de vinte bilhões de dólares, financiados com petrodólares e vendidos ao povo como o salto definitivo para a modernidade limpa. E essa modernidade limpa acaba de ser desafiada por um aparelho que qualquer adolescente compra com mesada de três meses. Davi e Golias virou tutorial de YouTube, e o gigante simplesmente não consegue admitir que apanha.
Siga o rastro. Quem ganha com um incidente desses? Primeiro, todo o complexo industrial de defesa antiaérea, que já está afiando as facas para vender aos sheiks mais um pacote bilionário de sistemas de detecção, jammers, radares de baixa altitude e o diabo a quatro. Segundo, as agências de segurança internas dos Emirados, que sempre encontram num susto a desculpa perfeita para apertar mais um botão de vigilância sobre a própria população. Terceiro, as seguradoras de risco político, que vão reprecificar tudo na região e cobrar pedágio mais gordo. O contribuinte emiradense vai pagar a conta de três maneiras simultâneas e nem vai perceber, porque lá quem reclama de imposto não tem microfone.
Há uma comédia silenciosa em ver os mesmos príncipes que financiaram exércitos paralelos por toda a região, no Iêmen, na Líbia, no Sudão, fingirem espanto quando a fatura voa de volta. Quem se acostuma a usar drones contra os outros não pode se indignar quando descobre que o vento muda. É a velha lógica das oficinas de armas: o que sai do depósito sempre acha o caminho de casa, com juros e correção monetária. Os impérios marítimos europeus aprenderam isso a duras penas no século vinte, quando as armas que despejaram nas colônias voltaram nas mãos dos descolonizados. A geografia do golfo só atualizou o roteiro.
E há o silêncio constrangedor sobre a autoria. Ninguém reivindicou, ninguém acusou formalmente, ninguém apontou o dedo. Esse silêncio é caríssimo e calculado, porque admitir o nome do agressor obriga uma resposta, e responder custa caro em vidas, em petróleo, em rotas de navegação. É mais barato deixar o cidadão comum acreditar que foi um acidente técnico, uma falha pontual, um drone perdido. Quando o Estado prefere o nevoeiro à clareza, é porque a clareza ameaça a próxima rodada de contratos.
Fica a moral para quem quiser ouvir: nenhuma fortaleza nuclear, nenhum exército de mercenários alugados, nenhum sistema de defesa de bilhões protege governos das consequências das próprias aventuras externas. A propaganda oficial vai falar de resiliência, de soberania, de tecnologia de ponta. Tradução: você, súdito ou pagador de imposto em qualquer canto desse mundo, vai bancar mais um andar do castelo enquanto os engenheiros do andar de baixo deixam a porta aberta. O reator de Barakah não vazou desta vez. A verdade vazou inteira.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.