Na madrugada desta quarta, drones iranianos atingiram o Aeroporto Internacional do Kuwait, abriram crateras no asfalto, feriram civis e empurraram a torre de controle para o protocolo de emergência. Voos desviados, terminais evacuados, manchete pronta para os telejornais da tarde. A geografia muda, o roteiro não. Sempre que um regime teocrático começa a sentir o cheiro azedo da própria população cansada de filas de pão, ele descobre, com a pontualidade de relógio suíço, um inimigo externo que precisa ser bombardeado com urgência cosmológica.

Convém olhar para o pano de fundo antes de engolir a versão oficial de qualquer um dos lados. O regime de Teerã sustenta, há décadas, uma rede de milícias por procuração que vai do Líbano ao Iêmen, financiada com petróleo vendido por baixo do pano e com a miséria imposta aos próprios cidadãos por meio de uma inflação que come o salário do operário iraniano antes mesmo de o envelope chegar em casa. Quem paga a fábrica de drones? O sujeito que faz fila para comprar arroz em Isfahã. Quem recebe? A casta de aiatolás, generais da Guarda Revolucionária e contratantes do complexo militar persa que enriquece a cada mísil disparado. O confisco silencioso da moeda virou método de financiamento de aventuras militares, e nenhum parlamento aprovou nada.

Do outro lado do Golfo, o Kuwait não é exatamente o oásis liberal que a propaganda do petróleo gostaria de vender. É uma monarquia que distribui esmolas com royalties do barril para comprar a paz social interna, sustenta uma burocracia inchada e, claro, terceiriza a própria defesa para potências ocidentais que cobram caro pelo seguro. O contribuinte americano, britânico, francês, sem ter pisado um dia naquela areia, paga porta-aviões, bases aéreas e ogivas de precisão para garantir que o emir possa continuar dormindo tranquilo no palácio. O imposto é cobrado em Houston e gasto no Kuwait, e o eleitor texano acha que está combatendo o terror.

A lógica é elementar, daquelas que cabem num silogismo de manual escolar. Estado que vive de tributo precisa de inimigo. Inimigo justifica orçamento militar. Orçamento militar engorda quem fabrica drone, míssil, radar e contrato de logística. Logo, todo Estado que vive de tributo tem incentivo permanente para fabricar inimigo. A guerra raramente é falha de diplomacia, é, quase sempre, a diplomacia funcionando exatamente como foi projetada para funcionar pelos que lucram com ela. Os mortos no saguão do aeroporto são externalidades contábeis de uma planilha que fecha em verde nos cofres de quem mandou o drone e de quem vai vender o sistema antiaéreo da semana que vem.

Enquanto isso, a imprensa global vai oscilar entre dois figurinos. Ora veste o Irã de potência heroica resistindo ao imperialismo, ora veste o Ocidente de bombeiro civilizatório obrigado a apagar incêndio alheio. As duas narrativas têm o mesmo objetivo, naturalizar a ideia de que mais governo, mais imposto, mais regulação, mais vigilância e mais bandeira hasteada são a resposta inevitável ao caos que o próprio governo criou. O sujeito comum, que só queria embarcar para visitar a filha, vira estatística numa guerra que não declarou, paga com dinheiro que não autorizou, em nome de uma segurança que nunca chega.

Resta a pergunta que ninguém faz em horário nobre porque ela estraga o jantar dos poderosos. Se amanhã o regime iraniano caísse pelo peso da própria opressão, e se as monarquias do Golfo precisassem se sustentar sem o cobertor militar estrangeiro, quem teria coragem de financiar drone para atravessar o deserto e atingir um aeroporto civil? A resposta é o silêncio que separa o cidadão livre do súdito. E é exatamente esse silêncio que os palácios, de ambos os lados da fronteira, gastam fortunas para manter.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.