Sete corpos na rodovia Panamericana, vinte feridos, um ônibus reduzido a chassi retorcido no departamento de Cauca. O explosivo não caiu do céu, não foi acidente geológico, não foi obra do acaso. Foi colocado ali por gente que continua armada, organizada e operante, anos depois de o Estado colombiano ter assinado, com pompa e circunstância internacional, o tal acordo de paz que renderia ao então presidente um Nobel e ao país a promessa de uma nova era. Bem, a nova era chegou. Ela tem cheiro de pólvora e som de sirene.
Convém perguntar, antes de qualquer indignação genérica, quem pagou esta conta e quem está recebendo o lucro político do massacre. Pagaram, como sempre, os passageiros, trabalhadores rurais, comerciantes, mulheres que voltavam para casa, gente que nunca pisou num gabinete em Bogotá nem assinou tratado nenhum. Recebem, do outro lado do balcão, dois grupos muito bem definidos. Primeiro, as facções dissidentes que se recusaram a entregar as armas e hoje controlam rotas de cocaína que movimentam mais dinheiro que a economia formal de meio país. Segundo, e este é o ponto que ninguém quer ver, o próprio aparato estatal, que a cada explosão ganha pretexto novo para pedir orçamento maior, poder maior, exceção maior.
O argumento é antigo e funciona como um relógio suíço. Ocorre a tragédia, o governo aparece de luto, promete operações especiais, anuncia pacotes de segurança, requisita verbas extraordinárias, milita zonas inteiras. Os generais ganham promoções, os ministros ganham manchetes, as empreiteiras de armamento e logística ganham contratos. O camponês de Cauca continua enterrando os mortos. É a mesma equação que fez de toda guerra interna na América Latina um negócio próspero para quem usa terno e um cemitério a céu aberto para quem usa bota de borracha.
Há uma lógica simples que costuma escapar aos comentaristas de televisão. Se o Estado colombiano gastou décadas e bilhões combatendo guerrilhas, depois mais bilhões negociando com elas, depois mais bilhões integrando ex-combatentes, e ainda assim ônibus explodem na estrada principal do sudoeste do país, então uma de duas coisas é verdadeira. Ou o Estado é incompetente a ponto de não conseguir cumprir a função básica que usa para justificar sua própria existência, que é proteger vidas e propriedades. Ou o Estado não tem o menor interesse em resolver o problema, porque o problema, devidamente administrado, é a galinha dos ovos de ouro de toda uma classe que vive dele. Escolha a hipótese que preferir; ambas condenam o arranjo.
A história ensina, para quem tem paciência de ouvir, que monopólios da violência tendem a fabricar exatamente os inimigos que precisam para se manter relevantes. Roma fez isso com os bárbaros, os Bourbons fizeram com os jansenistas, regimes modernos fazem com narcotraficantes, terroristas e dissidentes. Cada inimigo eterno corresponde a um orçamento eterno, a uma burocracia eterna, a uma escuta eterna sobre o cidadão pacífico, que é, no fim das contas, o único pagador da festa. Cauca não é exceção; é caso de manual.
Enquanto isso, o discurso oficial dirá que precisamos de mais Estado, mais polícia, mais imposto, mais controle, mais cooperação internacional. Traduzindo do idioma dos comunicados para o português dos vivos, isso significa mais dinheiro saindo do bolso de quem trabalha para financiar a mesma estrutura que falhou em proteger os sete mortos da Panamericana. Quem pagou a passagem do ônibus pagou também, via tributo, o salário de quem deveria ter impedido a bomba. Recebeu em troca um caixão. É o tipo de transação que, em qualquer mercado livre, levaria o fornecedor à falência imediata. No mercado da segurança estatal, ele apenas pede aumento de preço.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.