Sábado à noite, 25 de abril, Washington Hilton, dois mil e quinhentos convivas de smoking brindando a si mesmos no Jantar dos Correspondentes da Casa Branca, e um sujeito armado tenta entrar pela porta. Dentro do salão, o presidente, a primeira-dama, o vice, ministros, jornalistas estrelas e os figurões de Hollywood que nas outras 364 noites do ano fingem detestar o poder. Fora do salão, a prova de que o anel de proteção mais caro do planeta tem buracos do tamanho de uma pista de boliche. Autoridades correram para identificar o atirador e tranquilizar a plateia, mas o estrago simbólico já estava feito: o rei estava nu, e quem reparou foi um maluco com revólver.
Convém olhar a cena com a frieza de um perito. O Serviço Secreto americano consome bilhões de dólares por ano. Cada agente custa salário, treinamento, equipamento, hora extra, diária, deslocamento, helicóptero, cão farejador, drone, scanner. Tudo isso pago por aquele cidadão anônimo do Kansas que nunca pisou em hotel cinco estrelas e nunca vai brindar champanhe com âncora de televisão. E para que serve esse oceano de dinheiro? Para que, num evento marcado com seis meses de antecedência, num hotel sempre o mesmo, num horário publicado em todos os jornais, um homem chegue armado até a porta. Se isso é eficiência, eu sou rainha da Inglaterra.
O silogismo é desconfortável e por isso ninguém o pronuncia em voz alta. Premissa maior: o aparato de segurança existe para impedir exatamente este tipo de ocorrência. Premissa menor: a ocorrência ocorreu. Conclusão: ou o aparato é incompetente, ou está desviado de função, ou ambos. Não há quarta hipótese. E quando um sistema falha sistematicamente em entregar aquilo que justifica sua existência, mas continua crescendo em orçamento, é porque a função declarada não é a função real. A função real é se autoperpetuar, alimentar contratos, justificar promoções, gerar burocracia. O cidadão paga pela proteção e recebe um teatro; o burocrata paga nada e recebe um cargo vitalício.
Repare também no detalhe que a imprensa ortodoxa vai tratar como rodapé: o evento em si é uma gigantesca confraternização entre os que deveriam fiscalizar e os que deveriam ser fiscalizados. Em qualquer república que se respeitasse, jornalista jantando de gravata-borboleta com presidente seria escândalo, não tradição. É como auditor fiscal saindo de férias com o dono da empresa que vai auditar segunda-feira. O incidente do atirador apenas escancarou a contradição: o aparelho protege quem janta junto, e o povo, lá fora, paga a conta do champanhe, do filé mignon e da banda que tocou enquanto o sujeito sacava a arma na calçada.
A história costuma rir desses momentos. Roma também tinha sua guarda pretoriana, generosamente paga para defender o imperador, e que volta e meia decidia quem seria o próximo imperador. Versalhes tinha seus mosqueteiros, e o povo francês descobriu, da pior maneira, que eles não impediam fome, só aplaudiam ceia. O padrão se repete porque a natureza do bicho não muda: monopólio armado pago compulsoriamente cresce até o limite que a apatia popular permitir, e depois falha justamente na hora em que precisaria funcionar. A diferença é que, em 1789, o povo descobriu sozinho. Hoje, ele precisa de um forasteiro armado para lembrar que o castelo é de papelão.
No fim, a pergunta volta, teimosa como cobrador de aluguel. Quem paga? O contribuinte que não foi convidado, não bebeu, não comeu, não riu das piadinhas do mestre de cerimônias. Quem recebe? A casta que se diverte dentro do salão, os fornecedores do salão, a burocracia de segurança que vai usar o susto para pedir mais verba na semana que vem, e os jornalistas que amanhã escreverão editoriais comovidos sobre a importância de proteger a democracia, querendo dizer, na verdade, a importância de proteger o próprio jantar. O atirador errou o alvo, mas acertou a metáfora.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.