Ativistas que se meteram em barcos para entregar farinha e leite em pó a uma população cercada foram detidos por um Estado, jogados em celas e, segundo relatam, espancados e violentados sexualmente. O serviço penitenciário israelense, com a serenidade burocrática típica de quem nunca dormiu em concreto frio, nega tudo. É a velha cena: de um lado, corpos com hematomas e depoimentos detalhados; do outro, um comunicado oficial em papel timbrado. O leitor que escolha em quem confiar, mas convém lembrar que ninguém inventa marca de cassetete nas costelas por diversão.
O detalhe que costuma escapar do noticiário é o seguinte: esses voluntários não estavam armados, não estavam invadindo casa de ninguém, não estavam sequestrando crianças em escolas. Estavam, em tese, cometendo o crime hediondo de levar alimento a quem tem fome. Para que um aparato estatal trate o entregador de mantimentos com mais brutalidade do que trataria um traficante de armas, é preciso que o cálculo político tenha apodrecido a um nível raro. Quando o socorro virou ameaça à segurança nacional, alguma coisa muito estranha está escondida na conta.
E aí entra a pergunta que ninguém faz em horário nobre: quem paga essa festa? Os bombardeios diários sobre Gaza não saem de graça, e o cofre que os custeia tem endereço conhecido em Washington, com escala em parlamentos europeus que aprovam pacotes de defesa com a mesma naturalidade com que aprovam aumento do próprio salário. O contribuinte americano financia a bomba, o contribuinte europeu financia o avião que larga a bomba, e o contribuinte brasileiro, mais humilde, financia apenas a indignação seletiva da imprensa local. Cada quem com sua função no teatro.
O argumento padrão para justificar a violência contra os ativistas é o mesmo desde que o primeiro déspota descobriu que pode chamar de terrorista qualquer um que atrapalhe seu negócio. Diz-se que os barcos eram fachada, que escondiam algo, que poderiam ser armas, que poderiam ser disfarces, que poderiam ser qualquer coisa. Repare no truque retórico: a hipótese substitui a prova, a possibilidade substitui o fato, e de repente bater em um sueco de sessenta anos com biscoito na mochila vira ato de legítima defesa preventiva. É a lógica do lobo do conto: se você não sujou a água agora, sujou no ano passado, e se não foi você foi seu primo.
Há ainda o capítulo da imprensa domesticada, que recebe os comunicados oficiais e os reproduz como se viessem do oráculo de Delfos. Quando civis denunciam tortura em prisão estatal, exige-se laudo, perícia, testemunha, vídeo em quatro mil quadros por segundo. Quando o Estado nega, basta a nota. É a assimetria probatória que mantém o sistema de pé: a vítima tem o ônus de provar o sofrimento, o algoz tem o privilégio de negar com elegância. Funcionou na Argélia francesa, funcionou no Chile de Pinochet, funcionou na Lubianka soviética, e continua funcionando agora, com mais aparato de marketing.
No fim, o episódio é um pequeno raio-X de como funciona o monopólio da violência quando ninguém o vigia. Não importa a bandeira hasteada no quartel, não importa o hino cantado na escola, não importa a religião do general: dê a um homem o poder de prender outro sem prestar contas e em pouco tempo aparecerão hematomas que ninguém explica. A lição não é sobre Israel, é sobre todos os Estados que descobrirem o sabor doce de processar inimigos políticos com porão e cadeado. Quem paga a conta é sempre o civil desarmado. Quem recebe o cheque é sempre o uniforme.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.