Duzentas pessoas, ou quinhentas se contarmos com a generosidade contábil dos organizadores, ocuparam a esplanada para anunciar ao Brasil que descobriram a fórmula da felicidade: trabalhar menos e ganhar igual. A reivindicação tem nome técnico, fim da escala 6 por 1, e ambição metafísica, abolir a relação entre esforço e remuneração. Diante de uma população economicamente ativa de mais de cem milhões de almas, o ato reuniu o equivalente estatístico a um arredondamento para baixo. Mas o que falta em gente sobra em certeza, e o que falta em argumento sobra em microfone.
A tese é simples e por isso mesmo encantadora. Se o patrão paga cinco dias e recebe seis, então o trabalhador está sendo roubado em um dia. A conclusão, claro, é que basta uma canetada no Congresso para que esse dia retorne ao seu legítimo dono, sem que nada mais no universo precise mudar. O salário permanece, o preço do pão permanece, o aluguel permanece, a prateleira do mercado permanece cheia, e o país inteiro descobre, maravilhado, que vivia há séculos sob um feitiço que poderia ter sido quebrado com uma emenda constitucional. É a versão econômica do milagre da multiplicação dos pães, só que sem o pão e sem o milagre.
Convém perguntar, porque ninguém pergunta, quem paga a conta dessa generosidade legislativa. O comerciante de bairro, que abre às sete e fecha às vinte e duas, não tem como contratar um segundo padeiro só porque o calendário do legislador exige. Ele tem duas saídas honestas e uma desonesta. Fechar mais cedo, demitir o que tem, ou aumentar o preço do cafezinho até que o cliente pague pela escala que não lhe interessa. As três saídas terminam no mesmo lugar, no bolso do consumidor, que por acaso é o mesmo sujeito que aplaudiu a medida pensando que ela seria custeada por uma entidade abstrata chamada empresário, criatura mitológica que mora num cofre na Suíça e ri da desgraça alheia.
A história desse tipo de bondade compulsória já foi escrita várias vezes, em vários idiomas, sempre com o mesmo final. Cada vez que um parlamento decretou que o trabalho deveria valer mais sem produzir mais, a economia respondeu com a única linguagem que conhece, a do preço e a do desemprego. Não é maldade do mercado, é aritmética. O que distingue uma sociedade próspera de uma sociedade quebrada não é a generosidade das leis trabalhistas, é a quantidade de capital por trabalhador, e capital não brota de decreto, brota de poupança, e poupança não brota de feriado, brota de produção. Quem inverte essa ordem inverte a realidade, e a realidade tem o péssimo costume de devolver a fatura com juros.
Há ainda o pequeno detalhe sociológico de que a manifestação aconteceu num dia útil, em frente ao prédio onde a única atividade contínua é a produção de leis para regular a vida alheia. Os duzentos militantes do descanso eterno não estavam, naquele momento, na escala 6 por 1, nem em escala alguma. Estavam exercendo a mais nobre das profissões nacionais, a de pedir ao Estado que resolva, com a violência da lei, aquilo que o livre acordo entre adultos já resolveria se a lei deixasse. E o Estado, naturalmente, adora ser chamado. Cada nova regra é um cargo a mais na fiscalização, um sindicato fortalecido, um voto cativo, um problema que se cria para depois cobrar pela solução.
No fim, a pergunta volta sempre à mesma porta. Quem paga é o consumidor anônimo, o pequeno empregador sufocado, o jovem que não será contratado porque seu trabalho passou a custar mais do que produz. Quem recebe é a estrutura política que se nutre dessa indignação calibrada, o parlamentar que carimba a lei, o burocrata que fiscaliza, o militante profissional que faz da pauta o seu ganha-pão. A festa dos duzentos foi pequena, mas a conta, como sempre, virá grande, e será dividida entre os cento e tantos milhões que não foram convidados para a foto.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.