Silvio Matos morreu. Oitenta e dois anos, uma vida inteira transformada em voz, em personagem, em presença cênica que entrou na casa de gerações de brasileiros sem que a maioria soubesse o nome de quem falava. Isso é o dublador: o invisível essencial. O artesão que constrói a ponte entre o personagem estrangeiro e o ouvido nacional, que faz com que uma criança de seis anos acredite, sem hesitação, que aquele herói de animação pensa em português. É uma das mais sofisticadas formas de interpretação que existem, e é tratada pelo establishment cultural brasileiro com o mesmo apreço com que se trata um auxiliar de limpeza num palácio de mármore.
Há uma contradição devastadora no coração da indústria cultural deste país. De um lado, bilhões de reais despejados anualmente em projetos "culturais" que ninguém vê, produções que ganham prêmios em festivais que ninguém frequenta, peças de teatro que existem para a foto da noite de estreia e somem depois. De outro, artistas como Silvio Matos, que construíram carreiras reais, com público real, com afeto genuíno de gerações que cresceram ouvindo suas vozes, e que vivem e morrem na invisibilidade institucional. O Estado sabe distribuir verba para quem frequenta o coquetel certo. Nunca soube reconhecer quem faz arte de verdade.
A dubagem brasileira foi, durante décadas, uma das melhores do mundo. Não por decreto, não por incentivo fiscal, não por comissão ministerial. Por talento bruto e disciplina profissional de pessoas que estudavam, treinavam, ouviam, ajustavam a voz ao milímetro da emoção que o personagem exigia. Era uma escola inteira que se transmitia de geração em geração dentro dos estúdios, longe dos holofotes, longe das câmeras de making-of, longe dos perfis de revista. Esses homens e mulheres construíram algo que os burocratas da cultura jamais construirão: uma tradição viva. E tradições vivas só existem porque pessoas concretas, com nomes e rostos, as sustentam com o próprio corpo e voz ao longo de uma vida inteira.
Quando um artista assim morre, o luto correto não é o chorinho performático das redes sociais, o "descanse em paz" postado entre uma selfie e um anúncio patrocinado. O luto correto é a pergunta incômoda: o que este país fez, concretamente, para valorizar este homem enquanto ele estava vivo? Que estrutura existe para que um dublador de oitenta e dois anos, com cinquenta anos de carreira, viva com dignidade, tenha acesso a saúde de qualidade, deixe alguma segurança material para os seus? A resposta, se alguém tiver a honestidade de buscá-la, vai doer. O Estado que diz proteger a cultura nacional protege, na prática, os que sabem navegar nos editais e nas relações de favor. O artesão da voz não aprende essas habilidades no estúdio.
Há impérios que caíram por terem esquecido de honrar seus artesãos. Roma no declínio parou de admirar quem construía e começou a aplaudir quem discursava sobre construção. O Brasil não chegou a construir o bastante para poder se dar ao luxo de começar esse ciclo, mas está tentando. Silvio Matos foi enterrado neste domingo com a dignidade que a família e os amigos conseguiram reunir. A nota de pesar oficial, se houver, vai ocupar três parágrafos no portal de algum órgão que distribui verba para quem nunca deu ao país a décima parte do que ele deu. Isso não é tragédia. É política cultural brasileira funcionando exatamente como foi desenhada para funcionar.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.