Um avião de pequeno porte caiu em cima de uma residência em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e levou consigo Lucas Augusto da Silva Neto, piloto de 69 anos. Por uma combinação de sorte e geometria, as pessoas que estavam dentro da casa sobreviveram. A casa, coitada, não teve a mesma sorte. E aqui começa a parte que os jornais bem-comportados não vão contar: a tragédia individual virou estatística, mas a estrutura que produziu a tragédia continua intacta, recebendo verba, emitindo licença e cobrando taxa.
Há algo de profundamente revelador no fato de que, num país onde para abrir uma padaria você precisa de quinze alvarás, três vistorias e a bênção de um fiscal de óculos torto, aviões particulares caem sobre bairros inteiros com a regularidade de chuva de verão. O Estado, que se vende como o grande protetor da vida humana, é o mesmo que mantém uma aviação civil sucateada, com manutenção opaca, plano de voo flexível conforme o bolso, e fiscalização que funciona quase como um pedágio: pagou, passou. Quem paga a taxa de certificação? O operador. Quem recebe? A burocracia. Quem morre? O cidadão que estava lavando louça embaixo da rota.
A lógica é simples e cruel, e funciona como um silogismo de cozinha: se a aviação geral fosse efetivamente fiscalizada, os acidentes seguiriam padrões de aviação madura; os acidentes não seguem padrão de aviação madura, caem em casa de gente; logo, a fiscalização é encenação. O órgão regulador existe, tem prédio, tem servidor concursado, tem orçamento. O que ele não tem é resultado. E quando o resultado falta, a desculpa pronta é sempre a mesma: precisamos de mais verba, mais cargos, mais regulação. O incêndio criminoso pedindo para administrar o corpo de bombeiros.
Repare na coreografia do dia seguinte. Vão aparecer autoridades de óculos escuros, um helicóptero institucional, declarações solenes sobre lamentar profundamente, comissão de inquérito que dorme em três meses, e a promessa de aperto nas regras, leia-se: mais taxa, mais licença, mais carimbo. A família do piloto enterra o pai. O dono da casa fica esperando indenização que não vem. E os mesmos burocratas que falharam em prevenir vão receber o bônus do estudo do caso. É o velho golpe: o cobrador vira o resgatador, e o pagador da conta é sempre o mesmo sujeito anônimo que mora embaixo da rota de voo dos privilegiados de matrícula curta.
Vale lembrar, porque a história tem boa memória e nós, péssima, que cada acidente desses costuma envolver aeronaves antigas, manutenções postergadas, planos de voo improvisados e pistas clandestinas que todo mundo conhece menos o fiscal. Em Roma decadente, o cidadão pagava imposto para o aqueduto que não chegava ao seu bairro, enquanto o senador tinha banho quente em casa. Aqui é a mesma coisa, só que com asas. A regulação protege quem está dentro do clube, encarece quem está fora, e o telhado do trabalhador segue sendo a pista de pouso involuntária do hobby alheio. A liberdade, essa de verdade, começaria por uma ideia simples: que o dono do avião responda integralmente, com seu patrimônio, pelo que cai do céu. Sem socialização do prejuízo. Sem fundo público de indenização. Sem fiscal cúmplice para servir de para-raios.
Enquanto isso, ficamos com a cena: um homem morto, uma casa destruída, uma família que escapou por centímetros, e a máquina estatal já se preparando para vender, embalada em fita preta de luto, a próxima dose do mesmo veneno que produziu o acidente. Quem paga? Você, sempre. Quem recebe? Eles, sempre. E quem cai do céu? Quase nunca quem assina a regulamentação.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.