Na madrugada deste sábado, um monomotor caiu numa fazenda próxima a Altair, no interior paulista, e o piloto foi encontrado carbonizado dentro do que sobrou da aeronave. A nota oficial é a de sempre, daquelas que o cidadão já decora antes de ler, Secretaria de Segurança informou, perícia foi acionada, causas serão investigadas, autoridades lamentam. Traduzindo do idioma do comunicado para o português dos vivos, ninguém sabe de nada, ninguém viu nada, e a conta, como é de praxe, fica pendurada na fatalidade. A fatalidade, essa senhora conveniente, é funcionária pública de carteira assinada no Brasil, trabalha em horário integral e nunca pede demissão.
Voar no Brasil custa caro por desenho, não por acidente. Entre a taxa de fiscalização da agência reguladora, os exames periódicos, o CMA renovado a peso de ouro, o combustível tributado até o último litro de querosene, a homologação de peças que chegam de importação carimbadas três vezes, o IPVA aeronáutico travestido de taxa, o hangar cobrado pelo metro quadrado e o seguro que sobe todo ano porque o risco também sobe, o pequeno aviador brasileiro é um contribuinte alado. Cada centímetro que ele ganha altitude tem um carimbo do fisco embaixo. E quando o avião cai, aparecem os mesmos senhores que cobravam por tudo, agora de bloquinho em punho, para explicar que a segurança é uma prioridade. Prioridade de quem, exatamente, é a pergunta que ninguém faz.
Observe o silogismo que ninguém formaliza em rede nacional. Se a aviação geral paga pela fiscalização mais rigorosa, se paga pela manutenção certificada, se paga pelo controle de tráfego aéreo, se paga pela homologação de aeronaves e pela habilitação de pilotos, então ou ela está recebendo o serviço que comprou ou está sendo roubada com papelada timbrada. Não há terceira hipótese. Aviões caindo aos pedaços em monomotores particulares, enquanto a Receita engorda com taxas de navegação e a agência engorda com multas, é o mesmo arranjo do pedágio que cobra tarifa de primeiro mundo e entrega estrada de cabra. A diferença é que na estrada você para o carro e xinga. No céu você vira notícia de madrugada.
E convém não esquecer quem ganha com o aperto. Toda vez que cai um monomotor, ressurgem os virtuosos do parlamento propondo mais regulação, mais exigência, mais carimbo, mais curso obrigatório, mais seguro compulsório, mais inspeção. Cada nova regra é uma boca a mais para alimentar, seja da burocracia que fiscaliza, seja da consultoria credenciada que vende o selo, seja do despachante que empurra o processo. O piloto morto de Altair, coitado, ainda vai servir de pretexto para a próxima instrução normativa que vai inviabilizar mais cinquenta aeroclubes pelo interior, empurrar a aviação de pequeno porte para a informalidade ou para o abandono, e entregar o que sobrou do setor para dois ou três grupos grandes com advogados suficientes para traduzir o palavreado regulatório. Ganha o cartório, perde o piloto. Ganha o lobby, perde o mecânico de hangar que sabia cada parafuso daquele motor.
Há ainda o ritual forense, que é a parte teatral do assunto. Uma equipe chegará, abrirá laudos, demorará meses, produzirá relatório técnico de trezentas páginas em letra miúda, e a conclusão será genérica o bastante para não responsabilizar ninguém em particular e rigorosa o bastante para justificar o salário de quem assinou. É a mesma liturgia de sempre, herdada dos impérios antigos, quando o magistrado ia aos escombros de um incêndio não para descobrir a causa, mas para redigir a versão oficial que acalmaria o povo. Mudou a linguagem, não mudou o ofício. Quem paga o laudo é o mesmo contribuinte que pagou a taxa, a multa, a vistoria, o alvará e, no fim, o enterro.
Resta o sujeito carbonizado numa fazenda de Altair, cujo nome, aeronave, história, sonhos e débitos com a agência reguladora hão de ser, em breve, engolidos pela próxima manchete. Morreu só, no meio do canavial, fazendo o que gostava e o que o Estado cobrou para que ele pudesse fazer. A pergunta honesta não é por que ele caiu. A pergunta honesta é quanto ele pagou, ao longo da vida, para que um serviço minimamente decente de navegação aérea, fiscalização de peças e socorro de madrugada existisse, e o que de fato foi entregue em troca. A conta, como sempre, foi paga antes. O recibo é o corpo queimado. E os senhores de bloquinho, amanhã de manhã, estarão de volta à repartição, fiscalizando o próximo.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.