O Balanço Geral, comandado por Eleandro Passaia, alcançou pico de oito pontos nesta quarta-feira, terceiro melhor desempenho do ano, e a notícia foi servida com aquela solenidade de placar de Copa do Mundo. Recorde aqui, crescimento ali, vitória sobre a concorrência acolá. A pergunta que o release esquece de fazer, e que nenhum colunista de televisão tem coragem de formular, é simples: oito pontos significa quantos milhões de cérebros sintonizados, por quanto tempo, recebendo qual ração? Porque ibope não é troféu, é métrica de gado contado na porteira. E gado contado vale dinheiro.
O modelo é antigo, conhecido desde que o primeiro nobre romano descobriu que distribuir pão e organizar circo era mais barato que pagar legionário. A televisão aberta brasileira aperfeiçoou a equação: o circo é grátis, o pão você compra no intervalo comercial, e a conta final chega disfarçada no preço de cada produto anunciado. Quem paga o jornalístico das seis da tarde não é a emissora, é o consumidor do detergente, da margarina, do plano funerário, do empréstimo consignado para aposentado. O espectador acha que está recebendo informação de presente, quando na verdade está alugando o próprio tempo de vida por mercadoria mal precificada.
E o conteúdo, ah, o conteúdo. Tragédia urbana editada com trilha sonora de suspense, polícia entrando em barraco, repórter aos berros, indignação seletiva contra o ladrão de galinha enquanto o ladrão de bilhão aparece em entrevista respeitosa no telejornal das oito. A fórmula funciona porque cumpre função precisa: drenar a raiva legítima do cidadão para alvos baratos e politicamente inofensivos. Bate no traficante de esquina, nunca no traficante de influência. Mostra o flagrante do camelô, jamais o flagrante do orçamento secreto. O pobre apanha em rede nacional, o poderoso recebe pauta combinada.
Oito pontos de ibope, traduzindo para a linguagem do mundo real, significam alguns milhões de famílias jantando enquanto absorvem, sem filtro, a versão oficial dos fatos. É o mesmo método do velho monopólio estatal de radiodifusão soviético, só que terceirizado para iniciativa privada concessionária, o que é mais elegante e mais eficaz. O Estado não precisa censurar quando a concessão pública depende de favor político e o anunciante depende de incentivo fiscal. A autocensura faz o serviço de graça e ainda sorri para a câmera.
Comemorar recorde de audiência de jornalístico sensacionalista é comemorar que o anestésico está funcionando bem. Toda sociedade que troca discernimento por entretenimento indignado paga a conta depois, e paga em parcelas crescentes: paga em voto mal dado, paga em imposto que sobe sem ninguém perceber, paga em liberdade que evapora porque ninguém estava olhando, ocupado demais acompanhando perseguição policial ao vivo. O preço do ibope alheio é cobrado no bolso de todo mundo, inclusive de quem não assiste.
Então fica a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta deste país: quem paga e quem recebe? Paga o telespectador, com tempo, atenção e dinheiro embutido no produto anunciado. Recebe a emissora, recebe o anunciante, recebe o político que aparece bem na tela e o que some convenientemente dela. O recorde é deles. A conta é sua.
Com informações de O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.