Domingo de sol em Copacabana, banhistas espalhados na areia como sardinhas em óleo de coco, e do céu desce um balão. Não um balão de festa infantil, não um daqueles brinquedos coloridos que escapam da mão de uma criança distraída. Um balão de verdade, desses que sobem por horas, atravessam zonas de aproximação de aeroporto, ameaçam linhas de transmissão, telhados, cabeças. Caiu no Posto 5, sem feridos, segundo a versão oficial. Aplauso, fim do assunto, próxima pauta. É exatamente assim que se constrói a tolerância silenciosa com o crime: pelo hábito do susto sem consequência.

Soltar balão é crime ambiental tipificado em lei federal desde 1998, com pena de um a três anos de detenção. Está lá, escrito, carimbado, publicado em Diário Oficial. E no entanto a temporada de balões na Grande Rio e na Grande São Paulo é tão pontual quanto o calendário litúrgico, todo ano, nas mesmas datas, com os mesmos vídeos circulando nas mesmas redes sociais, com os mesmos perfis ostentando a façanha. A pergunta inevitável, aquela que ninguém faz porque dá trabalho, é simples. Quem foi preso? Quem foi multado? Quem pagou pelo risco transferido a milhões de pessoas que não pediram para participar dessa loteria de combustão?

A resposta também é simples e por isso desconfortável. Praticamente ninguém. A máquina pública que cobra imposto sobre o protetor solar do banhista, sobre a água de coco do quiosque, sobre a sunga importada e sobre o aluguel do apartamento de frente para o mar, essa mesma máquina é incapaz, ano após ano, década após década, de identificar e responsabilizar os autores de uma prática ilegal documentada em vídeo de alta resolução por testemunhas voluntárias. O confisco funciona com precisão suíça quando o alvo é o trabalhador. O policiamento desaparece como fumaça quando o alvo é o folclore organizado.

Há aqui um arranjo clássico, daqueles que se repetem desde que existe poder concentrado disputando legitimidade. O Estado mantém leis severas no papel para parecer rigoroso, deixa de aplicá-las para não desagradar grupos de pressão, e usa o eventual acidente como pretexto para pedir mais orçamento, mais câmeras, mais drones, mais secretarias, mais cargos comissionados. O ciclo é virtuoso para quem opera a máquina e ruinoso para quem a sustenta. O banhista de Copacabana é a vítima dupla, paga pelo aparato que não funciona e ainda corre o risco de ser atingido pelo objeto que o aparato deveria impedir de subir.

Imagine se um cidadão comum jogasse, do alto de um edifício, um saco de tecido inflamável de quinze metros de altura para ver se cai em alguém. Estaria preso antes do anoitecer, processado por tentativa de homicídio, fotografado algemado, transformado em manchete de portal moralizante. Mas se o mesmo objeto subir centenas de metros, atravessar a cidade inteira e despencar numa praia lotada, o caso vira nota curiosa, vídeo viralizado, pauta de fim de tarde. O critério do que é crime, no Brasil, não é a gravidade do ato. É o constrangimento político que a punição causaria. Lei dura para o pagador de imposto, lei elástica para o eleitor barulhento.

O balão que pousou na areia é a metáfora perfeita do projeto nacional. Sobe sem permissão, voa sem rota, cai sem culpado, e quando alguém se queima a conta vem para todos nós no boleto seguinte, travestida de taxa de fiscalização, contribuição de iluminação pública, adicional de segurança turística. Quem soltou se diverte. Quem fiscaliza não fiscaliza. Quem legisla legisla para a foto. E quem paga, como sempre, é o de sempre. A pergunta inicial continua de pé, e nenhum vento de praia a derruba. Quem paga e quem recebe?

Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.