O Bank of America soltou o relatório e o mercado fingiu espanto. Queda de 10% nas taxas de banco de investimento no próximo ciclo, com fusões e aquisições travando, IPOs sumindo do radar e as mesas de originação vendo o telefone parar de tocar. O detalhe que ninguém quer sublinhar é que essa contração não caiu do céu: é a fatura vencida de uma década em que juro artificialmente baixo transformou banqueiro de investimento em intermediário de bolha, cobrando comissão gorda para empacotar empresa que nunca deveria ter aberto capital e para casar companhia que nunca deveria ter sido fundida.

Quando o banco central mantém dinheiro barato por tempo suficiente, o cálculo econômico apodrece. Empresas zumbis conseguem financiamento, deals sem sinergia real ganham verniz de estratégia, e o andar nobre de Wall Street vira uma linha de montagem de operações que só fazem sentido enquanto o custo do capital estiver mentindo. Agora que o juro voltou a se comportar como preço, e não como favor político, as tais operações somem, e com elas as taxas de dois dígitos que o setor cobrava com cara de quem prestava serviço essencial à humanidade.

Olha, é preciso enxergar o que não está no comunicado. Cada ponto percentual de taxa de banco de investimento que evapora corresponde a projetos que nunca deveriam ter nascido, empregos que nunca deveriam ter sido criados na esteira daquele deal, e capital que finalmente pode migrar para uso produtivo em vez de alimentar a engrenagem financeira que gira sobre si mesma. O que a manchete chama de retração, o cidadão comum deveria chamar de faxina tardia. Doeu porque tinha que doer.

Me diz uma coisa: quando o mesmo banco que passou anos assessorando megafusões vem agora avisar que o mercado vai encolher, quem exatamente está no papel de vítima? O banqueiro que embolsou bônus de sete dígitos durante o ciclo expansivo, ou o poupador que pagou pela festa via inflação, via imposto e via alocação torta de crédito? A resposta é constrangedora, e por isso ninguém a formula em voz alta nos programas de televisão especializados em repetir release de banco.

O mais delicioso da história é o teatro da surpresa. Analistas escrevendo relatórios espessos para explicar que dinheiro caro reduz atividade especulativa, como se a descoberta fosse mérito de pesquisa e não senso comum de qualquer feirante que empresta cem reais ao vizinho. Se juro alto derruba fusão inflada, é porque a fusão inflada só existia por causa do juro baixo. O ciclo é este, sempre foi este, e continuará sendo este enquanto houver planejador central achando que consegue afinar a orquestra do crédito com maestria de burocrata.

A queda de 10% projetada não é anomalia a ser combatida com estímulo, é sintoma de retorno à sanidade. Quem construiu império sobre areia molhada de liquidez artificial vai ver o castelo desmoronar, e é bom que desmorone antes que o próximo ciclo comece com estrutura ainda mais podre. O mercado de capitais existe para financiar produção real, não para sustentar a folha de pagamento de mesa de M&A em Manhattan. Se o Bank of America agora precisa apertar o cinto, o resto do mundo pode finalmente respirar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.