Vinte e nove vezes campeão, e a manchete vem embrulhada como conquista esportiva, como se a bola tivesse rolado sozinha e o gramado tivesse brotado dinheiro. R$ 550 milhões caem no caixa do Barcelona, e o noticiário trata isso como mérito puro, como recompensa natural da excelência futebolística. Curioso. Porque excelência futebolística, no sentido estrito, é fazer gol e ganhar partida. O resto, esse rio caudaloso de meio bilhão, não nasce no vestiário. Nasce em outro lugar, e quem quiser entender o jogo verdadeiro precisa primeiro tirar a camisa do time e vestir a do contador.
A bolada vem de direitos de transmissão e receitas vinculadas à competição nacional, traduzindo do espanhol, vem do bolso de quem assina pacote de televisão, de quem paga assinatura de streaming, de quem consome o produto patrocinado, de quem é alvo da publicidade que financia o circo. O torcedor não recebe um centavo do troféu. O torcedor financia o troféu. E ainda compra a camisa nova para celebrar a transferência de renda que ele próprio operou, da própria carteira para o caixa do clube, com sorriso no rosto e cachaça na mão. Houve impérios que cobravam tributo pela espada. Esse cobra pelo controle remoto, e ainda recebe ovação.
O arranjo é elegante, é preciso reconhecer. Cria-se uma liga, blinda-se a liga contra concorrência real, distribui-se a premiação entre meia dúzia de gigantes que já tinham caixa para comprar os melhores jogadores, e o resultado, surpresa das surpresas, é que os mesmos clubes vencem ano após ano, década após década, século após século. Chamam isso de tradição. O nome técnico é cartel. A diferença entre o monopólio do sal na França pré-revolucionária e o monopólio dos direitos televisivos no futebol moderno é apenas estética, num caso o povo pagava com moeda de prata, no outro paga com débito automático. A mecânica é idêntica, alguém define quem pode vender, quem deve comprar, e a que preço.
Há também o capítulo das subvenções públicas, dos estádios construídos com dinheiro de contribuinte, das renegociações tributárias generosas, das isenções convenientes que clubes europeus colecionam como troféus invisíveis. O Barcelona, em particular, tem uma biografia financeira que daria um manual de criatividade contábil, dívidas reestruturadas, ativos vendidos para fundos amigos, alavancagens batizadas com nomes poéticos. Quando uma padaria de bairro faz metade disso, vai presa. Quando faz um clube com estádio histórico e bandeira no peito, vira gestão arrojada. A lei, no fim, é uma questão de quantos sócios torcedores você consegue convocar para a manifestação.
E há o silogismo que o noticiário esportivo finge não enxergar. Se a premiação vem do consumidor, e o consumidor não escolheu pagar por aquele clube específico, então o que existe ali é redistribuição forçada pela arquitetura do mercado, não recompensa voluntária pelo desempenho. O torcedor do time pequeno, que vê seu clube definhar enquanto o gigante engorda com a verba coletiva, deveria fazer uma pergunta simples antes do próximo brinde, por que eu pago o jantar do vizinho rico. A resposta é que ninguém ensinou ele a fazer essa pergunta, e a indústria do entretenimento gasta fortunas para garantir que ele nunca aprenda.
No final, fica a foto da taça erguida, o confete, os jogadores milionários abraçados, os dirigentes sorrindo para as câmeras, e meio bilhão de reais trocando de mãos sob aplausos. Quem paga, o consumidor anônimo, atomizado, distraído, convencido de que está comprando paixão. Quem recebe, o cartel bem vestido que entendeu antes de todo mundo que o futebol moderno não se vence em campo, vence-se no contrato. Bola rolando é só a cortina. O jogo de verdade está na planilha, e a planilha, como sempre, está escrita em tinta tirada do bolso alheio.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.