O Estreito de Ormuz tem vinte e um quilômetros de largura no seu ponto mais estreito. Por ele passa, todos os dias, cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta. Não é um detalhe geográfico, é uma guilhotina econômica suspensa sobre o pescoço de bilhões de pessoas que nunca votaram em nenhum presidente americano nem em nenhum aiatolá iraniano. Quando Donald Trump anunciou, neste domingo, um bloqueio naval àquela faixa d'água, o barril WTI foi de US$ 87 para US$ 104,9 em questão de horas nas bolsas asiáticas. A física da geopolítica é assim: a pedra cai em Washington, o respingo molha São Paulo.
A manobra tem uma lógica interna que precisa ser nomeada sem eufemismos: um presidente americano pressionado internamente, com aprovação oscilante e eleições no horizonte, descobriu que nada unifica eleitores dispersos como um inimigo externo bem escolhido. O Irã é o inimigo perfeito, pois é ameaçador o suficiente para justificar a postura heroica mas suficientemente contido para não virar uma guerra total que destruiria as pesquisas de intenção de voto. O bloqueio naval não é estratégia militar, é teatro eleitoral com torpedos reais. O problema do teatro caro é que o ingresso quem paga é o público, não o diretor.
Siga o dinheiro, como sempre. As ações das grandes petroleiras abriram em alta nas bolsas asiáticas ainda na madrugada. Os contratos futuros de petróleo negociados em Londres e Chicago registraram volume atípico nas horas que antecederam o anúncio oficial, o que levanta perguntas inconvenientes sobre quem sabia o quê e quando. A indústria de defesa americana, cujos contratos dependem de orçamentos militares que dependem de ameaças que dependem de tensões que dependem de decisões presidenciais, sorriu discretamente enquanto o mundo dormia. Isso não é conspiração, é apenas a lógica do incentivo: quando o Estado tem o poder de criar escassez por decreto, sempre há quem aposte nessa criação antes que o decreto seja assinado.
O Brasil assiste a esse espetáculo numa posição de vulnerabilidade estrutural que deveria envergonhar quem governa Brasília. Importamos derivados, nossa Petrobras oscila ao sabor de Ormuz tanto quanto de Brasília, e não temos política energética digna desse nome, apenas uma estatal que serve a dez senhores diferentes dependendo do vento político da estação. Quando o barril sobe vinte dólares num fim de semana, o caminhoneiro sente na segunda-feira, o consumidor sente na quinta, e o inflação aparece no IPCA do mês seguinte. O governante explica que a culpa é da geopolítica internacional, como se geopolítica fosse um fenômeno climático e não o resultado de decisões tomadas por seres humanos com nomes, interesses e contas bancárias identificáveis.
Há uma ironia que a história aprecia servir gelada: as grandes potências que proclamam a ordem internacional como valor supremo são as mesmas que, quando lhes convém, bloqueiam estreitos, impõem sanções unilaterais e redesenham rotas de comércio pelo simples poder da força naval. Roma fazia isso no Mediterrâneo e chamava de pax romana. A Grã-Bretanha fez isso durante séculos nos mares do mundo e chamava de livre-comércio. Hoje se chama segurança global. O nome muda, a mecânica é idêntica: quem tem o canhão define os termos, e quem não tem o canhão paga o preço definido. O cidadão comum, em qualquer latitude, é sempre o terceiro na dança entre impérios, e nunca é ele que escolhe a música.
O preço do petróleo vai oscilar, as tensões vão negociar, os diplomatas vão jantar e fazer comunicados conjuntos, e o barril pode voltar a noventa dólares em três semanas. Mas o princípio que o episódio expõe permanece intacto: a cada vez que o Estado, qualquer Estado, amplia seu poder de interferência sobre rotas comerciais, sobre preços, sobre o fluxo de recursos naturais, o cidadão fica mais pobre e mais dependente. Não por acidente. Por design. A dependência é o produto, não o efeito colateral. E enquanto o mundo debate se Trump tem razão sobre o Irã, o tanque do seu carro ficou vinte reais mais caro de encher, e ninguém vai lhe pedir desculpa por isso.
Com informações da Gazeta Brasil. A análise e opinião são do O Algoz.