O fato é simples e deveria ser escandaloso: em junho de 2025, o Banco Central do Brasil autorizou um aumento de capital do Banco Master apesar de seus próprios técnicos terem apontado indícios de circularização de recursos. Para quem não frequenta o jargão dos burocratas financeiros, circularização é o nome elegante que se dá ao truque de passar o mesmo dinheiro de um bolso para outro dentro do mesmo terno e chamar isso de "capitalização". É como se você transferisse cem reais da conta corrente para a poupança e declarasse ao mundo que dobrou seu patrimônio. Nenhum centavo novo entrou. Nenhum ativo real foi criado. O que houve foi uma coreografia contábil entre empresas ligadas, desenhada para produzir a ilusão de solidez onde só existe fragilidade maquiada. E o regulador, que existe teoricamente para impedir exatamente esse tipo de artimanha, carimbou o papel e seguiu em frente.

A pergunta que deveria manter acordado qualquer cidadão que paga imposto neste país é esta: por que o Banco Central aprovou? Não se trata de ignorância técnica. Os alertas existiam, foram documentados, subiram pela cadeia hierárquica e, em algum gabinete com ar-condicionado e café coado, alguém decidiu que o conveniente era mais importante que o correto. Esse é o mecanismo central de toda crise bancária que este país já viveu, do Econômico ao Panamericano, do Santos ao Cruzeiro do Sul. O roteiro é sempre o mesmo: um banco cresce agressivamente oferecendo taxas acima do mercado, financia sua expansão com engenharia contábil que os técnicos do BC enxergam mas os diretores preferem não ver, e quando a música para, aparece o Fundo Garantidor de Crédito ou, na falta dele, o Tesouro Nacional, que é apenas outro nome para o seu bolso. A única variável que muda é o nome do banco. O contribuinte, esse, é sempre escalado para o mesmo papel.

O que torna o caso do Master particularmente revelador é a transparência involuntária da farsa. Não estamos diante de uma fraude sofisticada que só um gênio da contabilidade forense poderia detectar. Os próprios servidores do Banco Central identificaram o problema e registraram suas objeções. A circularização de recursos entre partes relacionadas é um dos sinais mais elementares de capitalização fictícia, consta em qualquer manual de supervisão bancária do planeta. É o tipo de irregularidade que um estagiário de auditoria aprende a detectar no primeiro mês de trabalho. E ainda assim, a autorização saiu. O que isso nos diz não é que o sistema falhou por incompetência, mas que funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. O regulador não existe para proteger o depositante; existe para administrar a relação política entre o Estado e o sistema financeiro. Quando os interesses colidem, adivinha quem perde.

Há uma lógica perversa e perfeitamente racional por trás dessa cumplicidade. Para o diretor do BC que assina a autorização, o cálculo é claro: se aprovar e o banco sobreviver, ninguém jamais saberá. Se aprovar e o banco quebrar, o problema será do próximo diretor, do próximo governo, do próximo mandato. Se negar, porém, a crise estoura agora, no seu turno, com o seu nome no jornal. Toda a estrutura de incentivos do sistema de regulação bancária estatal empurra o burocrata para a omissão. O político quer crédito barato rodando na economia antes da eleição. O banqueiro quer continuar operando sem aportar capital próprio de verdade. O regulador quer paz institucional. E o cidadão comum, que não entende de Basileia III nem de capital regulatório, descobre que estava na conta só quando o resgate bilionário aparece na manchete. Privatizam-se os lucros, socializam-se os prejuízos. Não é acidente, não é desvio, não é falha do sistema. É o sistema.

Se existe uma lição que a história financeira deste país ensina com insistência quase pedagógica é que bancos não quebram de repente. Bancos quebram devagar, sob os olhos atentos de quem deveria impedir a quebra, e então, quando já não há mais como esconder, quebram de uma vez, espetacularmente, e o discurso oficial muda da noite para o dia: o que ontem era "instituição sólida e bem capitalizada" hoje é "risco sistêmico que exige intervenção imediata para proteger a estabilidade". A estabilidade de quem, cabe perguntar. Não a do aposentado que tinha CDB no banco. Não a do pequeno empresário que dependia da linha de crédito. A estabilidade do arranjo político que permite a um punhado de pessoas usar o dinheiro alheio para enriquecer e transferir o risco para toda a sociedade quando a aposta dá errado. O Banco Central do Brasil não é um xerife. É um tabelião que reconhece firma em documento falso e depois alega que não leu o que estava carimbando. O Master pode sobreviver, pode ser vendido, pode ser liquidado. Mas a pergunta que importa já está respondida: quem paga e quem recebe? Você paga. Eles recebem. Como sempre.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.