Imagine a cena. Um sujeito invade sua casa, esvazia sua carteira, leva o relógio do seu avô e, três meses depois, bate à sua porta segurando uma moeda de cinquenta centavos e dizendo, com sorriso solene, que você tem treze dias para reaver o troco. Se não comparecer ao balcão indicado, com senha, biometria, comprovante de residência e paciência de monge, o troco fica com ele. É essa, em miniatura, a comédia macabra que se desenrola agora no balcão previdenciário, onde aposentados que tiveram descontos indevidos arrancados do contracheque precisam implorar pela devolução daquilo que jamais deveria ter saído de suas contas.

Convém recordar a anatomia do golpe antes de aplaudir a suposta generosidade. Durante anos, associações fantasmas, sindicatos de fachada e entidades de papel passaram a mão no bolso de velhinhos que sequer sabiam ter sido associados a coisa nenhuma. O desconto entrava silencioso, mensal, eterno, com a cumplicidade de um sistema que enxerga elefante quando quer enxergar mosquito. Ninguém autorizou, ninguém assinou, ninguém foi consultado, mas o débito vinha pontual como relógio suíço. Quem montou esse esquema não era um gênio do mal escondido em caverna; eram gente engravatada, com CNPJ ativo, sala alugada perto de algum gabinete, e a benção tácita de quem deveria fiscalizar.

Agora vem a parte engraçada, se é que rir do velório dos outros é permitido. O mesmo órgão que dormiu no ponto enquanto bilhões eram sugados das aposentadorias mais magras do país aparece como redentor, oferecendo um prazo cretino de treze dias para que a vítima, geralmente septuagenária, com pressão alta e neto pendurado no pescoço, vá consultar extrato, comparar valores, identificar descontos e, claro, não cair em novo golpe enquanto tenta reaver o primeiro. Porque sim, há golpistas se passando por funcionários oferecendo ajuda na recuperação. O Estado abre a ferida, espalha o sangue na água, e depois finge surpresa quando os tubarões aparecem. Não é incompetência; é desenho de processo.

Siga o caminho do dinheiro e a moral da história fica nua. Quem pagou foram os aposentados, com mensalidades roubadas a conta-gotas durante anos. Quem recebeu foram associações suspeitas, intermediários convenientes, e talvez, vá saber, alguns padrinhos políticos que toda hora aparecem sorridentes em foto de inauguração. Quem agora opera a devolução é o mesmo aparato que cobra carnê de imposto sobre a mesma aposentadoria, que reajusta benefício abaixo da inflação real, que muda regra de cálculo no meio do jogo. Devolver o que foi furtado não é virtude, é obrigação mínima de quem ainda quer chamar a si mesmo de instituição civilizada. Pedir gratidão por isso é o equivalente moral do sequestrador que solta a vítima e exige carta de recomendação.

Há uma lição mais funda escondida no episódio, e ela não cabe em manchete bonita. Sempre que o monopólio da força se associa ao monopólio da gestão, o resultado é sempre, sem exceção, alguma combinação de incompetência protegida e roubo institucionalizado. Quando o intermediário entre você e seu próprio dinheiro é obrigatório, armado e imune a falência, a tentação de mexer no caixa é irresistível, e os mecanismos de correção chegam, quando chegam, tarde, parciais e burocráticos. O cidadão comum aprende, geração após geração, que o ente que deveria protegê-lo é exatamente o ente do qual precisa se proteger, e que a única bondade do leviatã é aquela que lhe arrancam à força.

Se você ou alguém da sua família recebe benefício previdenciário, corra, consulte o extrato, exija a devolução, denuncie o desconto, e desconfie de qualquer voz amiga ao telefone oferecendo facilitar o processo. Mas saiba também que essa correria não é cidadania exercida em plenitude; é vítima limpando o tapete depois do assalto. Aplaudir a devolução é aceitar a tese de que o roubo é o estado natural das coisas e que a restituição parcial é favor da casa. Não é. Nunca foi. Treze dias é o prazo do balcão. A vida inteira é o prazo da memória.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.