O fato é grosseiro e quase cômico: erguem-se torres de aço de duzentos metros no meio do mar, gigantes pagos com subsídio bilionário em nome do clima, e o que se descobre embaixo delas, oito anos depois, não é o cemitério ecológico que os panfletos prometiam combater. É exatamente o contrário. Polvos, caranguejos, peixes que ninguém via há décadas, mais de duzentas e setenta espécies fazendo festa nas bases das colunas. Os biólogos estão incrédulos, dizem as manchetes. Incrédulos por quê, exatamente? Porque finalmente entenderam que o oceano funciona melhor quando alguém é dono dele e os outros não podem entrar.

Pois é isso, sem disfarce, o que aconteceu. Para enfiar aquelas hélices ali, o governo desenhou um cercado invisível e proibiu a pesca de arrasto na área. Adeus redes raspando o fundo, adeus traineiras industriais varrendo tudo o que se move. O que se chamou de parque eólico é, na prática, uma reserva privada disfarçada de obra pública. A turbina é o álibi, o subsídio é o lubrificante, e o efeito colateral foi um santuário marinho mantido sem custo nenhum para o contribuinte que já paga pela eletricidade duas vezes, uma na conta de luz e outra no imposto.

Há séculos os economistas mais honestos tentam explicar uma coisa simples que qualquer pescador artesanal sabe na pele: quando ninguém é dono, todo mundo destrói. O mar aberto sempre foi o exemplo de manual do recurso comum saqueado até a exaustão, porque o peixe que eu não pegar hoje o concorrente pega amanhã, e o fundo arrastado pela rede do vizinho não me deixa nada para a próxima safra. A tragédia não tem nada de mística, é aritmética simples de incentivos. Bastou, por acidente, fechar um pedaço do oceano e dar a ele um senhorio, ainda que esse senhorio seja uma corporação eólica de braço dado com a burocracia de Bruxelas, para a natureza voltar a respirar.

O detalhe saboroso, e aqui o riso é inevitável, é que a estrutura inteira foi vendida ao público com a retórica do salvamento planetário, da transição energética, da urgência climática. Ninguém ousou dizer ao eleitor europeu que o verdadeiro milagre ecológico do projeto não vinha das pás giratórias, vinha do cordão de isolamento policial em volta delas. O polvo não se reproduziu porque o vento gira. Reproduziu-se porque o arrastão não passa. A propaganda vendeu a turbina, mas o trabalho pesado quem fez foi a cerca.

E agora siga o dinheiro, que é onde a piada fica realmente sinistra. As mesmas empresas que recebem tarifa garantida pela energia produzida, recebem também, de bandeja, o monopólio territorial sobre quilômetros quadrados de oceano que antes pertenciam difusamente a todos e portanto a ninguém. Os pescadores tradicionais, esses sim, foram empurrados para áreas menores, mais disputadas, mais pobres, e quando reclamam são tratados como inimigos do planeta. A pequena pesca paga a conta, o gigante eólico cobra o aluguel, o burocrata corta a fita, o jornalista aplaude, o polvo vira mascote da campanha seguinte. Cada ator no seu papel, cada centavo no seu destinatário.

Resta perguntar, com a malícia que o assunto merece, por que então não se admite o óbvio e se transforma o mar em propriedade dividida, com donos identificáveis, responsáveis civis, herdeiros, contratos, pesca licenciada por concessão privada e não por carimbo ministerial. A resposta é que, nesse cenário, sobra polvo mas falta cargo, falta agência, falta ministério, falta congresso ambiental em hotel cinco estrelas. O peixe que importa nessa história nunca foi o que nada no fundo, foi o que se serve no jantar dos reguladores. Quem paga continua sendo o consumidor de eletricidade e o pescador expulso. Quem recebe são os de sempre, agora com selo verde no peito e um cefalópode na foto institucional.

Com informações da O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.