No último dia doze de abril, em uma igreja de Miami chamada Santa Ágata, um bispo nicaraguense que mora fora da própria diocese desde 2019 fez o que todo regime autoritário mais teme: descreveu a realidade com as palavras exatas. Silvio Báez chamou de falsa paz aquilo que os boletins oficiais de Manágua vendem como estabilidade, harmonia e concórdia nacional. A cena resume a geografia moral da Nicarágua atual. O pastor do rebanho está do lado de cá do Caribe porque, do lado de lá, cumprir o ofício virou contravenção. O rebanho, por sua vez, recebe diariamente a dose de propaganda que explica, com voz macia de locutor estatal, que tudo vai muito bem.

Convém lembrar de que natureza é essa paz. Em abril de 2018, manifestações populares contra uma reforma previdenciária foram recebidas a bala pelos aparatos de repressão do casal presidencial. Desde então, o país virou laboratório de uma fórmula simples: fechar jornais, cassar ONGs, confiscar universidades, prender padres, expulsar freiras, apreender contas bancárias da Igreja, cancelar a cidadania de opositores e, no fim, declarar o território pacificado. Funciona. Pacifica-se tudo o que não respira. A mesma técnica foi ensaiada em Havana, aperfeiçoada em Caracas e agora é exportada em versão tropicalizada. Chamar isso de paz é o mesmo que chamar de jardim o terreno depois da passagem da motosserra.

Há um detalhe que a imprensa distraída costuma deixar na nota de rodapé: a máquina de repressão custa caro e alguém paga. Paga o nicaraguense comum, via confisco tributário, via inflação, via empresas expropriadas repassadas a cuadros do partido, via bens da Igreja transformados em patrimônio do Estado por decreto. Quem recebe é sempre a mesma casta: a família que governa, os generais que protegem a família, os empresários amigos que lucram com os monopólios concedidos pela família e a burocracia partidária que administra a distribuição de migalhas. A estrutura é tão velha quanto o primeiro sátrapa que descobriu que mandar é mais rentável do que trabalhar. Muda a bandeira, muda o figurino, muda o sotaque. O arranjo é idêntico.

E o bispo no exílio, o que significa? Significa que o regime precisou banir a figura cuja única arma era o microfone da homilia de domingo. Um governo seguro de si não expulsa padres. Um governo seguro de si debate com eles, ignora-os, ri deles. Exilar um sacerdote é confessar, em letras garrafais, que a palavra dita do púlpito ainda fura a couraça da propaganda oficial. Toda ditadura moderna sabe disso intuitivamente, por isso gasta tanto capital político perseguindo quem reza. O inimigo número um de um poder que se pretende absoluto nunca é o guerrilheiro armado. É o velho de batina que insiste em lembrar que existe uma autoridade acima do decreto presidencial.

A lição atravessa o Caribe e chega aqui sem precisar de tradução. Toda vez que um governo apresentar paz social como realização de gestão, convém perguntar, com a frieza de um auditor, o que foi silenciado para que essa paz existisse. Quem foi calado, quem foi preso, quem foi cancelado, quem foi banido do debate público, quem teve conta bancária bloqueada, quem teve a profissão regulamentada até a asfixia. Paz genuína é ruidosa, porque é feita de milhões de pessoas discordando em liberdade e resolvendo suas querelas pela palavra, pelo contrato e pelo mercado. A outra, a que vem empacotada em discurso oficial e missa obrigatória para o líder, é apenas o nome protocolar do medo coletivo.

Por isso a frase do bispo ecoa mais alto do que qualquer relatório de organismo internacional. Ele não apresentou números, não invocou tratados, não pediu sanções. Disse o óbvio, e o óbvio, em tempos de mentira industrializada, funciona como detonador. Onde o Estado proíbe procissão, a procissão que ainda há é a dos exilados. Onde o regime monopoliza o microfone, a homilia de um domingo em Miami vira o único noticiário confiável do país. Resta ao resto do continente decidir se assiste ao ensaio com a curiosidade de quem vê um documentário distante ou se começa a reconhecer, nas próprias pacificações locais, os primeiros passos da mesma coreografia.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.