Os boca de urna colocam Keiko Fujimori na liderança da eleição presidencial peruana, caminhando confortavelmente para o segundo turno. O Peru, esse país que já foi capaz de prender um ex-presidente dentro do próprio palácio, que já viu outro se suicidar para fugir da polícia, que já destituiu, impeachou e enterrou mais chefes de Estado numa geração do que a maioria dos países consegue em dois séculos, este mesmo Peru está votando, com convicção, na herdeira sanguínea do regime que inaugurou boa parte desse carnaval institucional. Existe uma palavra técnica para isso. Não é democracia. É amnésia com urna.
Alberto Fujimori governou o Peru dos anos 1990 com a mão que o Estado sempre usa quando abandona o fingimento: a mão de ferro. Dissolveu o Congresso por decreto, colocou o Judiciário no bolso, financiou esquadrões paramilitares que assassinaram civis, e fez tudo isso sob o aplausômetro de uma parcela da população que via nele o homem forte que ia "resolver". O homem forte resolveu, de fato. Resolveu acumular bilhões desviados do erário, esterilizar mulheres indígenas à força, e entregar o país a uma estrutura de corrupção tão capilar que ainda hoje, trinta anos depois, seus tentáculos aparecem nos escândalos que derrubam governos no Peru como chuva em estação seca. Keiko não inventou nada. Ela herdou o sobrenome, o aparato e, ao que parece, o eleitorado.
Há algo de pagão, de quase pré-racional, nessa fidelidade ao clã. Civilizações mais antigas que a nossa já sabiam que o problema do poder não é apenas quem o exerce, mas a estrutura que o sustenta. Quando uma família controla um partido, um partido controla um Estado, e um Estado controla recursos que deveriam pertencer a indivíduos livres, o resultado não é governo, é pilhagem com bandeira. A diferença entre Keiko presa por lavagem de dinheiro e Keiko candidata à presidência não é jurídica nem moral. É calendária. Ela cumpriu o ritual burocrático de sobreviver aos processos, e isso no Peru, como em tantos outros lugares, equivale à absolvição pública. Que o processo tenha durado o suficiente para ela chegar às eleições novamente não é acidente do sistema. É o sistema funcionando exatamente como foi projetado para funcionar.
O adversário mais provável no segundo turno, seja Roberto Sánchez ou Rafael López Aliaga, representa os dois polos que o establishment peruano oferece como alternativa: a esquerda que sempre soube usar o Estado como instrumento de poder clientelista, e a direita que faz alarde de livre mercado enquanto nunca toca nos monopólios e concessões que financiam suas campanhas. A população peruana, encurralada entre essas opções, faz o que eleitorados sem bússola sempre fazem: volta ao familiar. E o familiar, nesse caso, chama-se Fujimori. É o mesmo reflexo que faz populações empobrecidas e desorientadas alcançarem o punho fechado de quem as empobreceu, porque pelo menos aquele punho tem um nome reconhecível. O medo do desconhecido supera, na aritmética emocional das massas, a memória da exploração conhecida.
A trilha do dinheiro, quando rastreada com honestidade, nunca mente. Keiko foi condenada e depois solta numa dança processual que envolveu decisões judiciais de timing cirúrgico. Seus financiadores de campanha em eleições anteriores incluíram operadores da Odebrecht, empresa que transformou a corrupção sul-americana num modelo de franquia multinacional. Que ela esteja novamente em primeiro lugar nas pesquisas não diz nada sobre o Peru que não se soubesse antes. Diz que o dinheiro que comprou eleições no passado ainda circula, que as estruturas que distribuem votos em troca de favores ainda estão de pé, e que a pergunta relevante nunca foi "quem vai ganhar" mas "quem vai pagar a conta". A conta, como sempre, será apresentada ao contribuinte peruano, que pagará impostos para financiar um Estado que existirá, primordialmente, para servir a quem o controla.
Repúblicas que não conseguem aprender com os próprios erros não são tragédias, são escolhas. O Peru escolheu, em intervalos regulares, eleger, processar, prender e eventualmente reabilitar os mesmos personagens e as mesmas famílias. Isso não é disfunção, é coerência de um sistema que nunca foi, de fato, construído para servir ao cidadão comum. Fujimori lidera. O Peru vota. E a história, essa senhora sem paciência para fingimentos, toma nota calada, sabendo que terá oportunidade de dizer "eu avisei" mais uma vez, com a pontualidade cruel que só ela possui.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.