Na quinta-feira, a bolsa de Taiwan fechou valendo quatro trilhões e cento e trinta bilhões de dólares. A de Londres, coitada, parou em quatro trilhões e noventa. Uma ilha que cabe três vezes dentro do Paraná, cercada pelo apetite chinês, produzindo chips num ritmo que faria o Vaticano invejar em conversões, superou o mercado acionário da pátria de Churchill, do Banco da Inglaterra, da City financeira que por dois séculos ditou as regras do capitalismo mundial. Não é manchete de caderno de economia. É epitáfio.

Quem paga e quem recebe? Essa é a pergunta que derruba governos antes mesmo de eles perceberem que caíram. Londres recebeu, durante décadas, o dinheiro de poupadores do mundo inteiro confiando na solidez do império. E o que fez com esse dinheiro? Financiou um Estado obeso, uma previdência insustentável, uma burocracia que regula desde a largura da banana até o tom de voz permitido nos pubs. Taiwan, enquanto isso, recebeu o quê? Pedidos de encomenda. A TSMC sozinha fabrica mais de noventa por cento dos chips avançados do planeta. A diferença entre os dois modelos cabe numa frase: um vende solução, o outro vende regulamento.

O Reino Unido cometeu o pecado favorito das civilizações em decadência, trocar produção por administração. Saiu da União Europeia prometendo renascimento industrial e entregou aumento de tributo sobre ganho de capital, imposto de herança confiscatório, energia mais cara da Europa graças ao romantismo verde que fechou usina nuclear para abrir cataventos dependentes de subsídio. Empresa lista ação em Nova York, em Amsterdã, em qualquer lugar menos em casa, porque em casa o fisco está de tocaia. Quando o capital foge, não foge reclamando, foge calado. E a bolsa, que é o termômetro mais honesto que existe, registrou a febre.

Taiwan seguiu o roteiro contrário, o roteiro que ninguém mais tem coragem de seguir, que é deixar engenheiro trabalhar, deixar empresa lucrar, deixar poupança virar investimento sem que sessenta por cento vire primeiro combustível de campanha eleitoral. Não é milagre oriental, não é cultura confucionista mística, é aritmética. Onde o governo fica menor, o setor produtivo fica maior. Onde o confisco recua, o capital avança. E o capital, esse bicho esquivo, não vota, não protesta, não dá entrevista, apenas migra. Londres descobriu isso do jeito humilhante, olhando no espelho e vendo uma ilha menor do outro lado do mundo com chips melhores e cofres mais cheios.

Há um detalhe deliciosamente ácido nessa história. Taiwan vive sob a ameaça militar permanente de um vizinho gigante que promete engoli-la desde 1949. Londres vive em paz, protegida pela OTAN, pelos mares, pela tradição. Ou seja, a ilha ameaçada produz, enquanto o império confortável regulamenta. Moral da fábula, a verdadeira ameaça existencial de uma nação nunca foi o míssil inimigo, foi o funcionário público criando a próxima alíquota. Míssil destrói cidade, imposto destrói civilização, e a diferença é só a velocidade.

Alguém do lado britânico vai reclamar que a comparação é injusta, que Taiwan tem o mercado inflado por um setor específico, que os chips são bolha. Talvez. Mas bolha de produto que o mundo inteiro precisa é bem diferente de bolha de dívida soberana que o mundo inteiro tolera por inércia. E enquanto os analistas de Londres escrevem relatórios explicando por que perderam, os engenheiros de Taipé estão projetando o próximo nanômetro. Quem paga? O poupador inglês que viu sua pensão encolher em libras desvalorizadas. Quem recebe? O operário taiwanês, o empresário taiwanês, o acionista taiwanês. O resto é literatura de consolo.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.