O Ibovespa cravou 199.232 pontos nesta quarta-feira e os confetes caíram dos terminais Bloomberg como se o Brasil tivesse descoberto petróleo na Faria Lima. Recorde histórico, gritam as manchetes, quando corrigido pela inflação. Releiam a frase com calma. Quando corrigido pela inflação. Isso quer dizer que o investidor brasileiro precisou de dezoito anos, um quinto de século, apenas para voltar ao mesmo lugar em termos de poder de compra real. Se você comprou o topo em 2008, segurou firme durante crises, impeachments, pandemias e toda sorte de circo estatal, sua recompensa épica foi: empatar. Parabéns. Em qualquer outro ramo da atividade humana, empatar depois de dezoito anos seria motivo de vergonha. No mercado financeiro brasileiro, é motivo de brinde.
A pergunta que não aparece em nenhuma análise de corretora, em nenhum relatório de banco e em nenhum editorial eufórico é a mais simples de todas: por que diabos levou 18 anos? A resposta cabe numa palavra que ninguém no governo pronuncia com honestidade: inflação. Não a inflação de meta, não a inflação "controlada", não a inflação "dentro da banda". A inflação real, aquela que corrói o salário do sujeito que ganha cinco mil reais e percebe que o carrinho de supermercado está mais leve a cada mês. O real perdeu algo como 75% do seu poder de compra desde 2008. O índice subiu em pontos nominais, o Banco Central imprimiu, o governo gastou, e a moeda fez o que toda moeda estatal faz quando submetida à incontinência fiscal: derreteu. O "recorde" do Ibovespa não é uma vitória do mercado. É o atestado de óbito do poder de compra da moeda.
Sigam o dinheiro, como sempre. Quem está na bolsa brasileira? Aproximadamente 5 milhões de CPFs, numa população de 210 milhões. Estamos falando de menos de 2,5% da população. A festa é exclusiva, e o manobrista é o contribuinte. Toda a política monetária expansionista dos últimos anos, os juros artificialmente manipulados, os pacotes de estímulo, os subsídios via BNDES, a gastança pública financiada com emissão de dívida, tudo isso inflou os preços dos ativos para quem já os possuía. O sujeito que tem ações viu o patrimônio nominal subir. O sujeito que tem poupança, que ganha salário fixo, que vive de aposentadoria, viu o mundo ficar mais caro enquanto seu dinheiro compra cada vez menos. Isso tem um nome técnico: transferência de riqueza dos pobres para os ricos via política monetária. O Estado, aquele mesmo que jura existir para proteger os vulneráveis, é o principal mecanismo de concentração de renda já inventado. Não por acidente; por design.
É instrutivo comparar com o que aconteceu nos Estados Unidos no mesmo período. O S&P 500, corrigido pela inflação, multiplicou-se várias vezes desde 2008. O investidor americano ficou genuinamente mais rico. O brasileiro ficou empatado, se tanto, e ainda por cima pagou um dos maiores spreads de juros reais do planeta pelo privilégio de ter seu dinheiro num país onde o governo confisca, regula, tributa e depois reclama que o empresário não investe. A diferença não é de competência dos investidores. É de ambiente institucional. Onde o Estado é menor, a riqueza cresce. Onde o Estado é um parasita obeso, a riqueza circula em círculos, beneficiando sempre os mesmos.
O mais grotesco é o tom celebratório. Ministros vão aparecer tomando crédito, como se o governo tivesse alguma coisa a ver com a alta da bolsa além de ter sido, durante dezoito anos, o principal obstáculo a ela. Analistas de mercado vão recomendar "aproveitar o momento". Corretoras vão mandar push notification para o celular do investidor pessoa física, o famoso sardinha, sugerindo que agora é hora de entrar. A história é sempre a mesma: o dinheiro esperto já comprou, o dinheiro institucional já está posicionado, e a euforia midiática serve para atrair o último comprador, aquele que transforma o topo em topo. O recorde, quando finalmente vira manchete de jornal, costuma ser menos um começo do que um aviso de saída para quem já sabe como o jogo funciona.
Dezoito anos para voltar ao zero real. É isso que acontece quando se vive numa economia onde o governo é o maior devedor, o maior gastador, o maior regulador e o maior beneficiário da inflação que ele mesmo produz. A bolsa pode subir mais, pode bater 200 mil, 300 mil, meio milhão de pontos. Enquanto a moeda continuar sendo destruída por quem a emite, cada recorde nominal será apenas mais um capítulo da mesma farsa: a ilusão de riqueza medida em unidades que valem cada vez menos. Quem paga é quem poupa em reais. Quem recebe é quem tem acesso ao dinheiro novo primeiro. E assim roda a roda, sempre na mesma direção, sempre esmagando os mesmos.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.