Doze bilhões e setecentos e noventa milhões de reais. Num único mês. Depositados nas contas de 18,9 milhões de famílias com a solenidade de quem distribui o próprio dinheiro. O governo federal anuncia os repasses do Bolsa Família nesta quinta-feira como quem anuncia um ato de caridade, e a imprensa repercute o número com a reverência de quem cobre uma doação papal. Falta apenas a pergunta que ninguém faz porque a resposta envergonha: de onde vem esse dinheiro? Não brota do chão de Brasília, não cai do teto do Planalto, não nasce da boa vontade de ministro nenhum. Sai do bolso de quem acordou cedo, abriu o comércio, pagou o fornecedor, recolheu o imposto e ainda ouviu no jornal da noite que o governo "investe no social". Investir com o dinheiro dos outros é fácil; o nome técnico disso, em qualquer outro contexto, seria apropriação indébita.
O valor médio de R$ 678,22 por família soa modesto quando isolado, quase humanitário. Mas a engenharia política por trás do número é de uma sofisticação que faria inveja aos imperadores romanos que distribuíam trigo grátis na entrada do Coliseu. Roma descobriu cedo que povo alimentado pelo Estado é povo que não questiona o Estado. A fórmula não mudou em dois milênios, apenas ganhou conta bancária e aplicativo de celular. O beneficiário recebe o depósito e associa sua sobrevivência à continuidade de quem governa. O político, por sua vez, transforma cada real depositado em voto futuro, com taxa de conversão que nenhum marqueteiro de campanha conseguiria igualar. Não é programa social; é o maior programa de fidelização de clientes do país, e o cliente paga a própria assinatura sem saber.
Façamos a aritmética que o noticiário evita. R$ 12,79 bilhões por mês significam algo próximo de R$ 153 bilhões por ano, fora os reajustes eleitorais que surgem com a regularidade das estações. Esse montante não aparece do nada no orçamento. Ele é extraído de uma cadeia produtiva que vai do caminhoneiro que paga pedágio ao padeiro que recolhe Simples Nacional, passando pelo assalariado que vê um terço do salário evaporar antes de chegar à conta. Cada centavo do Bolsa Família é um centavo que alguém produziu e não pôde usar. Cada depósito é uma transferência forçada, intermediada por uma burocracia que consome parte do valor no trajeto, como um cano furado que perde água entre a caixa e a torneira. O governo se coloca como intermediário obrigatório entre quem produz e quem precisa, cobra a comissão do atravessador e ainda exige gratidão dos dois lados.
O mais perverso do arranjo não é o custo, é o incentivo. Um programa que atende quase 19 milhões de famílias, num país de 72 milhões de domicílios, significa que mais de um quarto das famílias brasileiras depende diretamente de uma transferência do governo federal para fechar o mês. Isso não é rede de proteção, é rede de contenção. Rede de proteção você usa e sai; rede de contenção você entra e fica. E fica porque o sistema foi desenhado para que ficar seja mais fácil do que sair. A porta de entrada é larga, a porta de saída nem existe. Ninguém no governo tem interesse em reduzir o número de beneficiários, porque cada família que deixa o programa é um voto que deixa a base. A pobreza, nesse cálculo, não é um problema a ser resolvido; é um ativo a ser administrado.
Há quem diga que sem o programa haveria fome generalizada, e essa objeção merece resposta honesta. A fome no Brasil não é produto da natureza, é produto de décadas de política econômica que sufocou o pequeno empreendedor com tributos, amarrou o trabalhador com regulação e inflou a moeda até que o salário comprasse menos a cada ano. O governo cria a doença e depois vende o remédio. Tributa o alimento na produção, no transporte e na prateleira, e depois devolve uma fração do confisco com nome de benefício. É como o incendiário que se apresenta como bombeiro e ainda cobra pelo serviço. Se o Estado devolvesse ao cidadão o que toma dele, não precisaria de programa nenhum, porque o cidadão faria com o próprio dinheiro o que faz melhor do que qualquer burocrata: cuidar da própria vida.
Doze bilhões e setecentos e noventa milhões. Todo mês. Todo santo mês. E na quinta-feira, quando os depósitos caírem, o governo sorrirá para as câmeras, o beneficiário agradecerá a quem lhe devolveu migalhas do que lhe foi tomado, e o contribuinte continuará calado, porque reclamar de programa social neste país é crime de lesa-narrativa. A pergunta que abre esta coluna é a mesma que a fecha: quem paga e quem recebe? Você já sabe a resposta. Só falta decidir até quando vai aceitar o papel que lhe foi atribuído nessa peça.
Com informações do Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.