A ex-primeira-dama informou ao Brasil, neste domingo, que o marido está um pouquinho chateado após a cirurgia no ombro direito, com dor controlada porém limitado nas tarefas mais corriqueiras. A frase é tocante no registro doméstico e reveladora no registro político. Veja o tamanho da operação simbólica: um cidadão sem mandato, sem cargo, sem função pública formal, transforma um procedimento ortopédico em comunicado nacional, e a imprensa toda se ajoelha para registrar o humor do convalescente como se fosse despacho do Vaticano em véspera de conclave.

Há aqui uma confissão involuntária sobre a natureza do nosso arranjo político. A república que se diz laica, racional e impessoal vive, na prática, do culto à personalidade. O eleitor médio não acompanha orçamento, não lê relatório de execução fiscal, não sabe quanto custa o andar de cima do Planalto, mas sabe que o capitão está chateado com o ombro. O afeto substitui a auditoria. E enquanto o afeto reina, a fatura corre solta no cartório da história, paga por quem sempre paga, ou seja, o sujeito que acorda cedo, pega ônibus e vê metade do salário evaporar antes mesmo de chegar em casa.

Convém aplicar o bisturi da lógica elementar. Se um homem privado merece boletim médico nacional, então ele não é privado. Se não é privado, é figura pública de fato, ainda que sem cargo de direito. Se é figura pública de fato sem responsabilidade institucional, então temos um poder paralelo operando à margem do controle republicano. A conclusão se impõe sem que ninguém precise gritá-la: o Brasil sustenta, com atenção e tempo de tela, uma corte itinerante de ex-mandatários que continuam emitindo decretos emocionais sobre a opinião pública. E corte, como ensina qualquer manual honesto de história, custa caro mesmo quando finge austeridade.

Olhe para a sequência histórica e a fotografia se repete com pequenas variações de figurino. Reis depostos viraram exilados ruidosos, generais aposentados viraram oráculos de quartel, presidentes derrotados viraram santos sofredores. Cada civilização teve a sua versão do herói incomodado pela ferida que o povo precisa lamber. O nosso ciclo apenas trocou o cavalo pela camionete e a espada pelo celular. A liturgia é a mesma: o líder padece, a esposa narra, o devoto chora, o adversário ri, e ninguém pergunta o que de fato está sendo decidido nos gabinetes enquanto a plateia se distrai com a tipoia.

Pergunte agora, com a frieza de quem não está hipnotizado, quem ganha com esse boletim. Ganha o ex-mandatário, que mantém a relevância sem precisar produzir uma ideia nova. Ganha a oposição governista, que aproveita o ruído para empurrar pauta sob a mesa. Ganha a imprensa, que vende clique de drama familiar como se fosse jornalismo investigativo. Ganha o circuito de aliados profissionais, que vivem da temperatura emocional do chefe, e perdem, sempre, o contribuinte anônimo e o eleitor que ainda acredita que política se faz com argumento, não com prontuário. A dor do ombro é real, a exploração política dela também.

Que o homem se recupere, que o ombro volte ao lugar, que a vida privada permaneça privada como manda a decência. O resto é o que sempre foi: a transformação da fragilidade humana em capital político, a conversão do paciente em totem, a redução do cidadão a espectador de novela alheia. Enquanto isso, o imposto continua sendo cobrado, a inflação continua corroendo, o gasto público continua crescendo, e o ombro do convalescente serve de cortina para que ninguém olhe na direção certa. A pergunta honesta não é como ele está, mas a quem interessa que falemos disso e não de outra coisa.

Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.