O boletim médico chegou ao gabinete do ministro como se o gabinete fosse consultório, e o ministro, clínico geral. Evolução satisfatória, melhora sutil no pulmão, alta hospitalar, prisão domiciliar humanitária por noventa dias. Repare na engenharia verbal do comunicado: cada adjetivo é uma dose homeopática de poder. Não é o juiz da causa quem decide, é o soberano que dispensa favor. E favor, quando vem de quem poderia negar, nunca é gratuito; é sempre lembrete de que o algoz também sabe ser misericordioso quando convém à encenação.
Observe a arquitetura do arranjo com os olhos frios de quem enxerga estrutura, não propaganda. Um mesmo homem acumula papéis que em qualquer república decente seriam incompatíveis por simples respeito à lógica: investiga, acusa, julga, condena, fiscaliza o cumprimento e agora administra a enfermaria domiciliar do condenado. O silogismo é brutal e dispensa adorno. Se quem decide a pena é também quem decide a exceção, então a pena nunca foi lei, sempre foi vontade. E onde impera vontade singular, não há tribunal, há trono.
Siga o dinheiro, que é o único caminho que nunca mente. Quem paga esta ópera? O contribuinte que sustenta o supremo, a Polícia Federal que monitora tornozelo eletrônico, a escolta, o sistema de vigilância, os servidores, os assessores, os relatórios médicos oficializados, as reportagens compulsórias, o aparato inteiro de um Estado que transformou um ex-presidente em personagem permanente do próprio folhetim. Quem recebe? O ecossistema togado que vive do prolongamento indefinido do espetáculo, a imprensa subvencionada que revende o drama em capítulos, e a casta política que agradece o enredo porque ele encobre o resto: o buraco fiscal, a inflação de alimentos, o calote silencioso nos seus salários reais.
Há quem se comova com a melhora sutil do pulmão, e a comoção é legítima, pois qualquer ser humano doente merece cuidado. Mas não confunda humanidade com humanitarismo decretado. Humanidade é o médico no hospital. Humanitarismo decretado é o magistrado vestindo avental para lembrar a quem pertence o paciente. A diferença entre os dois é a mesma que separa o pai que abraça o filho do carcereiro que afrouxa a corrente. Um cuida, o outro exibe que tem a chave. E quando o carcereiro quer aplauso pela frouxidão momentânea da corrente, desconfie: a corrente continua lá, só ficou simpática por noventa dias.
A história conhece bem este figurino. Os tribunais revolucionários da França davam banquetes aos condenados na véspera da guilhotina e chamavam aquilo de fraternidade. Os pretores romanos, nos tempos em que a república já era cadáver maquiado, concediam clementia principis aos inimigos derrotados, e o gesto, sempre filmado pelos cronistas oficiais, tinha uma única função: lembrar que o príncipe podia ter sido cruel e preferiu não ser, portanto é bom, portanto merece mais poder ainda. Clemência de juiz que poderia ter sido imparcial e preferiu ser adversário é exatamente o mesmo truque, só que com terno em vez de toga púrpura. Muda o figurino, não muda o roteiro.
Resta a pergunta, que é sempre a mesma porque é a única honesta: quem paga e quem recebe? Paga o cidadão que financia um judiciário que legisla, uma corte que governa e um ministro que brinca de médico. Recebe o próprio aparato, que cada dia descobre um novo verbo para conjugar na primeira pessoa do singular: investigo, processo, condeno, solto, prendo, solto de novo, decido sobre o pulmão alheio. Entre um boletim e outro, a república foi substituída pela clínica, a lei virou prescrição e o povo, aquele distraído figurante, continua pagando o convênio do espetáculo e agradecendo pela melhora sutil alheia enquanto sua própria liberdade definha sem diagnóstico.
Com informações da Jovem Pan. A análise e opinião são do O Algoz.